José Reinaldo: Ensinamentos da vitória dos povos sobre o fascismo

No dia 2 de maio de 1945 foi içada a bandeira comunista por um soldado soviético no Reichtag, momento triunfante em que a máquina de guerra hitlerista capitulava perante o invicto Exército Soviético, em Berlim, depois de ter sido destroçada em sangrentas batalhas.
Por José Reinaldo Carvalho (*)

Uma semana depois, a 9 de maio, tinha desfecho na Europa a Segunda Guerra Mundial, com a derrota final do nazi-fascismo. O conflito como um todo só terminaria quatro meses depois, com a capitulação japonesa, depois da ofensiva soviética na frente asiática e o desnecessário e criminoso bombardeio nuclear perpetrado pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki.

Para que jamais se repitam acontecimentos tão nefastos como o conjunto da obra do nazi-fascismo, e se eternize na memória dos povos a façanha libertadora realizada pela União Soviética e as forças democráticas, é que o 9 de maio terá de ser sempre comemorado. A data assinala a vitória das forças da paz, da democracia, do internacionalismo e da unidade antifascista.

Os povos da União Soviética pagaram o mais terrível preço em vidas humanas e prejuízos materiais, com a morte de 27 milhões dos seus cidadãos, incluindo 7,5 milhões de soldados. O país passou por inusitada devastação: 1.710 cidades e 70 mil povoados foram completamente destruídos; milhares de fábricas, empresas e cooperativas agrícolas danificadas, seis milhões de casas demolidas.

As vitórias do Exército Vermelho nas históricas batalhas de Moscou (outubro de 1941 a janeiro de 1942), Stalingrado (agosto de 1942 a fevereiro de 1943), Kursk (entre a primavera e o verão de 1943) e Berlim, na primavera de 1945 permanecerão indelevelmente marcadas na memória da humanidade, como o tributo dos povos soviéticos para a causa da libertação.

A vitória sobre o nazifascismo foi fruto também da união dos povos e das forças democráticas no âmbito de cada país e da ação política e militar de uma ampla aliança internacional, de que fizeram parte a União Soviética, o Reino Unido e os Estados Unidos.

Os povos dos países ocupados pelo fascismo protagonizaram a luta guerrilheira e uma multifacetada resistência. No combate ao nazifascismo foram constituídas frentes democráticas e populares de libertação nacional, com a participação de amplas camadas da população, organizações sociais e partidos políticos. Os comunistas desempenharam seu protagonismo na constituição dessas frentes.

O palco principal da resistência foi a Europa. Mas no restante do mundo, os povos também se levantaram contra a ofensiva alemã, italiana e japonesa. No Brasil, as forças democráticas fizeram movimentos pelo envio de tropas aos campos de batalha na Europa. Até hoje, os Pracinhas são com justiça cultuados pela memória nacional.

Tragédias como a Segunda Guerra Mundial, tal como a primeira, não ocorrem por acaso. Resultam de profundas causas econômicas e políticas relacionadas com a natureza do sistema capitalista.

A Segunda Guerra Mundial eclodiu como um confronto entre as grandes potências capitalistas, tendo sido provocada pelos países mais agressivos – a Alemanha nazista, a Itália fascista e o Japão. A intenção dessas potências era promover uma nova divisão do mundo tal como se configurara após a Primeira Guerra (1914 – 1918).

Tendo sua origem nas contradições entre potências capitalistas, a Segunda Guerra Mundial foi gradualmente mudando de caráter. Os povos dos países ocupados, principalmente a partir da agressão nazista à União Soviética, ergueram-se na resistência popular-nacional antifascista, passando a realizar uma justa luta democrática e de libertação nacional. Os próprios Estados capitalistas, a partir do desencadeamento da guerra, viram-se confrontados com o perigo nacional, o que criou condições para a formação de um amplo e poderoso movimento patriótico e antifascista.

Mas a conjuntura que precedeu a eclosão da guerra e mesmo o seu período inicial caracterizava-se pela tentativa da Grã Bretanha, França e Estados Unidos de provocar a destruição da União Soviética.

Revisitar o quadro político da época proporciona lições sobre a conduta das forças políticas à frente dos Estados nacionais e sobre as contradições no campo das próprias potências imperialistas. A luta contra o fascismo não foi sempre compreendida por determinados governos como algo necessário para garantir a democracia e o progresso social. Entre as facções “democráticas” da burguesia, a cartada fascista foi num dado momento uma opção na luta estratégica de fundo que moviam contra o socialismo.

Pacto anti-Comintern

Pouco recordado, um dos episódios mais pedagógicos a esse respeito foi o chamado “pacto anti-Comintern”. Em outubro de 1935, as tropas italianas invadiram a Etiópia. Nesse mesmo ano, a Alemanha e a Itália empreenderam ações militares conjuntas para esmagar a luta republicana e democrática, com caráter revolucionário, do povo espanhol. Em outubro de 1936, essas duas potências fascistas mantinham entendimentos para dividir as zonas de influência na Europa e aplicar uma política internacional comum.

Em 1936, representantes do Japão e da Alemanha assinaram em Berlim o “pacto anti-Comintern”, ao qual se uniu a Itália. Tratava-se de um esforço para convencer a opinião pública de que o seu objetivo era a luta contra o comunismo, especialmente contra o Comintern (o Comitê da Internacional Comunista). Na realidade, era um acordo político e militar que se baseava nos seus interesses para a redivisão do mundo por meio da guerra.

Mas, ao desenvolver uma política de suposta neutralidade, na prática Estados Unidos, Inglaterra e França calculavam superar as contradições com os países fascistas às custas da União Soviética. Essas três potências calculavam que, na luta contra a agressão fascista, os seus adversários se debilitariam, o que lhes permitiria manter suas zonas de influência e de ocupação colonial e liquidar a União Soviética como país socialista.

A política de “não intervenção” visava a isolar a União Soviética e criar as condições para uma grande cruzada dos países imperialistas contra esta, utilizando como força de ataque o fascismo alemão e o militarismo japonês. Diante de tal situação a União Soviética seguiu a política da segurança coletiva, segundo a qual os países interessados em sua segurança nacional deveriam manter laços entre si com tratados de ajuda mútua a fim de se defenderem de agressões.

A direção soviética advertiu que a política de não intervenção significava um encorajamento à agressão, permitia deixar o terreno livre à guerra e transformá-la em guerra mundial. Ficava claro nessa política de não intervenção o obscuro desejo de que, na frente oriental, o Japão entrasse em guerra contra a China e ainda mais contra a União Soviética. Nunca fez parte dos planos das potências imperialistas realizar qualquer ação que impedisse que a Alemanha golpeasse a União Soviética. O que pretendiam era fazer com que a Alemanha e a União Soviética se debilitassem numa guerra entre si para depois sair em cena com suas forças ilesas, e, no “interesse da paz”, impor as suas condições aos países beligerantes debilitados.

O complô de Munique

É nesse quadro que tem lugar o “complô de Munique”. Em março de 1938, as tropas hitleristas entraram na Áustria, sem nenhuma resistência. Após alguns dias, é proclamada a união desse país com a Alemanha. Apesar de ter sido uma agressão aberta, os governos ocidentais que seguiam a política de cedências, apressaram-se a reconhecer oficialmente esta “união”. Mais uma aprovação e encorajamento aos nazistas alemães, o que se confirma com as decisões da conferência de chefes de governos da Alemanha, Inglaterra, França e Itália, realizada em Munique, Alemanha, em setembro de 1938.

Os acordos assinados ali previam que a Tchecoslováquia entregasse à Alemanha no prazo de dez dias a região dos Sudetos e outros territórios fronteiriços. Este acordo na verdade equivalia à completa liquidação do Estado Tchecoslovaco.

A política de cedências, que representava também um perigo para os países que a praticavam, não era isenta de contradições. Havia setores que enxergavam que tal política inflaria o bloco dos países fascistas, pois era óbvio que estes apresentariam novas exigências de anexações, o que entraria cada vez mais em contradição com os interesses da própria Inglaterra, da França e dos Estados Unidos.

Antes de se tornar primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, partidário da política de enfrentamento militar a Hitler, fez um discurso na Câmara dos Comuns (parlamento britânico) criticando a posição adotada na Conferência de Munique: “Escolhemos uma derrota, sem guerra, cujas consequências nos acompanharão longe em nosso caminho”. “Vocês escolheram entre a guerra e a desonra; escolheram a desonra e terão a guerra”. Mais tarde, em suas memórias, o líder britânico, que de pró-soviético não tinha nada, escreveu: “A oferta dos soviéticos foi de fato ignorada. Eles não foram consultados em face da ameaça hitlerista e foram tratados com indiferença, para não dizer com desdém, o que marcou o espírito de Stálin. Os acontecimentos se desenvolveram como se a Rússia Soviética não existisse. Pagamos terrivelmente por isso”.

Pacto com a Alemanha

A primeira reação política e diplomática da União Soviética foram as conversações de Moscou, em março de 1939, com França e Inglaterra, visando a um tratado de ajuda mútua, para a eventualidade de uma agressão proveniente da Alemanha. Enquanto isso, os países imperialistas mantinham entendimentos secretos com Hitler a fim de dividir zonas de influência no mundo. Foi o que levou a União Soviética ao controvertido, mas demonstrado pelos fatos como salvador, tratado de não agressão com a Alemanha, em 1939. Com o tratado, a União Soviética temporariamente neutralizou a agressão nazista e paralisou os esforços dos imperialistas ingleses e franceses para isolá-la.

A recordação desses fatos e o resgate das decisões táticas e estratégicas da época servem para extrair lições, o que pode ajudar as forças anti-imperialistas que se encontram no combate contemporaneamente a melhor se situar nos quadros complexos com que se defrontam.

Frutos da vitória

Isto também é válido quando se aquilata o valor das conquistas resultantes do desfecho do conflito.

A vitória dos povos na Segunda Guerra Mundial provocou importantes modificações geopolíticas. O episódio marcou, de imediato, a derrocada dos planos imperialistas. Revoluções democráticas, populares e de libertação nacional foram vitoriosas. O caráter libertador da luta antifascista dos povos, o papel decisivo da União Soviética e das massas trabalhadoras e populares na vitória e a derrocada do fascismo deram impulso aos movimentos democráticos e socialistas em todo o mundo. Debilitou-se o sistema colonialista. Surgiu temporariamente uma nova correlação de forças favorável ao avanço das lutas pela paz e o progresso social. O campo democrático e anti-imperialista saiu fortalecido.

Neste quadro, os Estados Unidos, potência capitalista que também se consolidara com a vitória na guerra e se tornara a principal líder do sistema capitalista, inicia uma contraofensiva para assegurar posições hegemônicas e ordenar o sistema internacional segundo seus próprios interesses. O lançamento das bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki pela aviação estadunidense foi o ato inaugural da nova ordem que os Estados Unidos pretendiam impor.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial até os nossos dias, os Estados Unidos seguiram uma política e praticaram ações contrárias aos interesses dos povos, da democracia, da independência nacional e da paz mundial.

A ordem internacional que sucedeu à Segunda Guerra Mundial está superada. Suas instituições caducaram, a União Soviética desapareceu e os EUA vivem as contradições de sua inarredável crise e do seu prolongado declínio histórico, malgrado ainda mantenha a condição de principal superpotência militar.

Ameaça de novos conflitos

Ao final da segunda década do século 21, o mundo está de novo vivendo um grave momento, com renovadas tensões, instabilidade e ameaças à paz. Aprofunda-se a multidimensional crise do capitalismo, base objetiva a partir da qual se desenvolve uma brutal ofensiva imperialista contra os povos. Emergem novas configurações de forças na cena geopolítica, pondo em xeque a ordem mundial hegemonizada pelos Estados Unidos.

Está em curso uma conturbada transição na ordem mundial, marcada pelo declínio relativo da superpotência estadunidense e pela emergência de novos polos de poder econômico, político, diplomático e militar. A China socialista desponta como a principal economia do mundo, um forte poder nacional e um fator preponderante nas relações internacionais. A Rússia recupera sua condição de potência e participa intensamente das disputas geopolíticas. Estas tendências objetivas se chocam com os interesses dos Estados Unidos e seus aliados. A União Europeia, sob hegemonia alemã, acentua sua natureza imperialista, oscila entre aliança e rivalidade com os Estados Unidos e atua como linha de frente no combate à Rússia, mas também se enfraquece com a saída do Reino Unido. O Japão, há décadas em crise, ao tempo em que se mantém na órbita estadunidense, envereda por um caminho militarista próprio e busca aumentar sua projeção e presença na Ásia, em oposição à China.

Esta rearrumação de forças no campo geopolítico exerce forte impacto sobre as lutas dos povos. Embora as contradições entre potências imperialistas não sejam as principais no feixe dos antagonismos do mundo contemporâneo, elas podem causar fissuras que dão maior margem de manobra à resistência nacional e popular e precisam ser tomadas em consideração na luta pela paz e por uma nova ordem em que prevaleçam a democracia, o direito internacional, a soberania e a autodeterminação dos povos. É ilusão, porém, imaginar que uma nova ordem progressista possa derivar de arranjos entre potências imperialistas e que a emergência de um mundo multipolar será a resultante inexorável do desenvolvimento pacífico.

Transcorridos 72 anos desde o glorioso triunfo das forças democráticas e do progresso social sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, é imperioso renovar os compromissos pela paz, o que implica organizar as forças capazes de levar adiante, nas novas condições, a luta pela emancipação nacional e social.

(*) Jornalista, editor do Resistência, secretário de Política e Relações Internacionais do PCdoB