Em memória de Thomas Sankara, líder anti-imperialista africano

 

 

 

Em 15 de outubro de 1987, Thomas Sankara foi assassinado. Presidente do Conselho Nacional Revolucionário e presidente da República de Burkina Fasso entre 1983 e 1987, foi um marxista-leninista, anti-imperialista, pan-africanista e terceiro-mundista. Lutou incessantemente contra as injustiças, a corrupção, pelo progresso social e a emancipação das mulheres. Para homenagear este grande revolucionário africano, Resistência publica um artigo e uma entrevista que vieram à luz no jornal comunista francês L´Humanité. A entrevista, agora reeditada, foi feita em janeiro de 1984, cinco meses após sua chegada ao poder.

                                                                      Thomas Sankara, a possibilidade de uma África emancipada

Em 15 de outubro de 1987, em Uagadugu, uma experiência revolucionária exaltante chegava ao fim sob o crepitar das kalachnikovs. O presidente de Burkina Faso, Thomas Sankara, era assassinado, com doze de seus companheiros.

Por Rosa Moussaoui, em L´Humanité

Ele se recusava a ver a África estagnar na condição de “mundo atrasado de um Ocidente saciado”. Este compromisso lhe custou a vida. Em 15 de outubro de 1987, por ocasião do golpe de Estado perpetrado por seu “irmão” Blaise Comparoé, o presidente de Burkina Fasso, Thomas Sankara foi assassinado por um comando de militares do regimento da segurança presidencial.

No atestado de óbito oficial desse homem de 37 anos, que algumas semanas antes temia “uma morte violenta”, pode-se ler esta inverossímil menção”: “morte natural”. Sob a rajada dos kalachnikovs, um nome, outro mais, era acrescentado à longa lista dos revolucionários da África eliminados com a cumplicidade das capitais ocidentais: Patrice Lumumba no Congo, Amílcar Cabral, o combatente da independência da Guiné Bissau e de Cabo Verde, Ruben Um Nyobé, Félix Moumié e Ernest Ouandié de Camarões, Mehdi Ben Marka, o oposicionista marroquino, e tantos outros. Thomas Sankara tinha clareza sobre todas essas possibilidades aniquiladas. “Uma vez que aceitemos, trata-se de uma questão de tempo. Isto ocorrerá mais cedo ou mais tarde”, previa.

Foto Sankara

“Os revolucionários como indivíduos são assassinados, mas não se pode matar as ideias”

O “Che africano” sonhava ser médico

O assassinato desse dirigente carismático mexeu com todo o continente, destruindo a esperança de emancipação à qual ele deu corpo em Burkina Fasso, o Alto Volta, por ele rebatizado como “País dos homens íntegros”. Filho de um combatente da Segunda Guerra Mundial convertido ao catolicismo, Thomas Isidore Sankara foi destinado por seus parentes ao seminário. Ele sonhava ser médico. Finalmente, por uma confluência de circunstâncias, ele se junta ao Comando Militar de Kadiogo, em Uagadougu.

Diplomado, integra uma formação de oficiais na Academia Militar de Antsirabe, em Madagascar. A Grande Ilha encontra-se então em plena efervescência revolucionária, uma experiência determinante para o jovem Sankara. De retorno ao país, ele se dedica a organizar a jovem geração de oficiais formados no exterior sob os grilhões de um exército sempre enquadrado pelos antigos colonialistas. Oficiais como Henri Zongo, Boukary Kaboré, Jean-Baptiste Lingani paticipam desse ativismo clandestino no seio do exército. Durante um curso de formação militar no Marrocos, em 1976, Thomas Sankara faz amizade com Blaise Compaoré. Juntos, formam o Agrupamento de oficiais que desempenhará um papel de primeiro plano no desencadeamento da revolução democrática e popular, em 1983. Sankara assume o controle do Centro Nacional de Treinamento de Comando em Pô, a 150 quilômetros da capital.

No mesmo ano de 1983, ele se torna presidente do Alto Volta

Desde a independência (em 1960, Nota do Tradutor), o Alto Volta jamais conhecera verdadeiramente a estabilidade política. Civis ou militares, os regimes se sucederam, todos mais ou menos autoritários. Em 7 de novembro de 1982, um novo golpe de Estado leva ao poder Jean-Baptiste Ouédraogo, um médico militar. Dois meses mais tarde, aproveitando uma correlação de forças favorável ao campo progressista no seio do exército e devido à sua crescente popularidade, Thomas Sankara torna-se primeiro-ministro. Sua eloquência, seu ardor revolucionário, a visita que faz a Muamar Kadafi não agradam o Palácio do Eliseu (sede da Presidência da República da França. Nota do Tradutor).

Guy Penne, o “senhor África” de François Mitterrand, é despachado a Uagadugu. O primeiro- ministro é imediatamente demitido e preso. Começa uma insurreição popular que abre caminho aos militares. Em 4 de agosto de 1983, os comandos de Pô, tomados por Blaise Compaoré, conquistam Uagadugo, com o apoio de civis. Thomas Sankara torna-se presidente do Alto Volta. Imediatamente ele conclama a população a criar os Comitês de Defesa da Revolução (CDR). É o começo de uma experiência revolucionária tão efêmera quanto exaltante, alimentada por um profundo desejo de independência. Sankara é um apaixonado pela paz e a justiça social, feminista convicto, ecologista antes do tempo e anti-imperialista. Em apenas quatro anos, fato inédito, ele conseguiu levar um país do Sahel à autossuficiência alimentar. Muito ligado ao mundo rural, ele não hesitou em lutar frontalmente contra os feudais.

Seus objetivos? “Recusar o estado de sobrevivência mínima, aliviar as pressões, libertar nossos campos de um imobilismo medieval ou de uma regressão, democratizar nossa sociedade, abrir os espíritos para um universo de responsabilidade coletiva para ousar inventar o futuro. Quebrar e reconstruir a administração através de uma outra imagem do funcionário público, mergulhar nosso exército no povo pelo trabalho produtivo e lembrar incessantemente que, sem formação patriótica, um militar não passa de um criminoso em potencial”. Inimigo da dívida odiosa que mantém as ex-colônias em situação de sujeição às ex-metrópoles, Sankara quer curar seu país da dependência das “ajudas” externas. “A dívida não pode ser paga, primeiramente porque, se não pagarmos, nossos fornecedores de fundos não morrerão, estejamos seguros disto. Ao contrário, se pagarmos, somos nós que vamos morrer. Estejamos igualmente seguros disto!” – dizia na tribuna da Organização de Unidade Africana (OUA), em Addis-Abeba, em 29 de julho de 1987, conclamando a “produzir na África, transformar na África e consumir na África”. Em Burkina Fasso, novos circuitos de distribuição foram criados para favorecer as produções locais e os funcionários foram instados a se vestir de Fasso dan fani, a vestimenta tradicional fabricada nas tecelagens locais. Desde 1983, foram instituídos tribunais populares revolucionários para julgar os responsáveis políticos acusados de desfalque de fundos públicos e de corrupção. As penas consistiam na maioria das vezes no reembolso dos valores desviados e os funcionários ficavam sujeitos à suspensão ou à demissão.

Nos setores da educação, meio ambiente, agricultura, reforma do Estado, cultura, libertação das mulheres, da responsabilização da juventude, sucediam-se os programas a ritmo desenfreado, suscitando às vezes dissensões com os sindicatos e mesmo no campo revolucionário.

No cenário internacional, Sankara logo se afirmou como uma grande voz do continente africano e mesmo além, uma voz dos povos oprimidos ou mantidos sob tutela. Ele era franco, convicto, inflexível. No outono de 1986, quando François Mitterrand o visita em Uagadugu, ele não hesita, numa cena memorável, em criticar diante das câmeras sua complacência com o regime do apartheid na África do Sul. O velho socialista francês se esquiva saudando “a agudeza de uma bela juventude”. A implicação das redes franco-africanas na eliminação de Thomas Sankara é indubitável. Na época, reinavam nos círculos dominantes personagens sombrios como Jacques Foccart, lembrado por Jacques Chirac após seu retorno ao Matignon. O eixo dessas manobras franco-africanas? A Costa do Marfim, sobre a qual ainda reina o velho Félix Houphouët-Boigny…

Hoje, trinta anos após o assassinato de Thomas Sankara, no momento em que as potências imperialistas intensificam a ofensiva política, econômica e militar sobre o continente para perpetuar sua pilhagem, o legado do dirigente burquinense é ainda mais precioso do que nunca. “Ele deixa como herança uma imensa esperança para a África. A de completar a descolonização para permitir que os povos conquistem direitos, progresso e liberdade”, afirma Dominique Josse, responsável do Partido Comunista Francês pela África.

Há um sonho que Thomas Sankara não realizou. Exatamente um ano antes de seu assassinato, por ocasião de uma visita oficial na União Soviética, ele foi convidado à Cidade das Estrelas onde são formados e treinados os cosmonautas. A descoberta de uma cápsula Soyouz, das estações Saliout e Mir causa-lhe grande impressão. Ele se inclina diante da estátua de Yuri Gagarin, assina o livro de ouro e, antes de partir, saindo do protocolo, interpela os anfitriões. Ele conta : “Eu disse não, não é tudo, camaradas, esperem! Está tudo bem, estamos contentes. Nós os felicitamos, trata-se de um progresso científico. E quando tudo isto estiver a serviço dos povos, será realmente um bem. Mas eu queria perdir-lhes uma coisa … Duas vagas. É preciso que vocês reservem duas vagas, para formar burquinenses. Nós também queremos ir à Lua … Nós também vamos chegar lá! Então, a cooperação deve começar. E nós somos sérios. Nós queremos enviar pessoas à Lua, haverá americanos, soviéticos, pessoas de outros países… Mas haverá também de Burquina Fasso”.

Sankara Huma
                                                                                           “Nossa revolução não foi importada”

                                               Entrevista ao jornal L´Humanité, por André Brécourt, realizada em 23 de janeiro de 1984.

Um homem sorridente, descontraído, cheio de humor, franco, que nos recebeu demoradamente num domingo à noite, em seu gabinete no Conselho de Entendimento, ao final de uma visita ds doze dias no Alto Volta (o país seria depois chamado de Burkina Fasso, em agosto de 1984 – Nota da Redação), que nos permitiu encontrá-lo três vezes. Disse-nos, após a entrevista, que conhecia o nosso jornal de longa data e que aproveitava essa ocasião para “saudar todos os amigos leitores”.

L´Humanité: Muito se escreveu sobre a revolução no Alto Volta. Ela surpreende por seu estilo e incomoda muita gente. Podia dizer-nos por quê?  

Thomas Sankara: É verdade que nossa revolução incomoda e surpreende um grande número de pessoas. Surpreende no sentido de que rompe claramente os clichês geralmente admitidos que consideram a chegada de militares ao poder um banal golpe de Estado. Nós não fizemos aqui o que se pode chamar de golpe de Estado. Houve uma insurreição popular, minuciosamente preparada, na qual se encontravam progressistas, revolucionários, democratas, para pôr fim a um regime de submissão ao imperialismo. Foi isto que surpreendeu aqueles que não querem compreender o sentido em que evolui a história dos povos africanos. Igualmente, o que surpreende é que os militares do Alto Volta estão longe de ser aqueles pobres soldados tais como conhecemos em outros lugares ou tais como se imagina que sejam aqui. Os militares de nosso país, em sua grande maioria, são bastante politizados. São elementos ligados aos seus povos, compartilham suas aspirações e lutas cotidianas. Eles sabem quem é o inimigo principal e como os combater.

Se nossa revolução popular preocupa, é essencialmente por causa do exemplo que ela pode representar e não somente para a sub-região. Nossa revolução não foi importada e menos ainda decidimos exportá-la. Ela resulta de um processo histórico, cientificamente verificado, inevitável, na transformação das lutas que as classes sociais têm a realizar umas contra as outras para chegar a esta forma de revolução que não demanda algo mais do que se aperfeiçoar, as mesmas causas produzindo os mesmos efeitos, seja qual for o céu sob os quais estejam.

Sankara e Fidel

Com o líder revolucionário cubano Fidel Castro

L´Humanité: Vocês querem ir adiante e rapidamente. Mas os feudais no campo continuam poderosos, assim como a burguesia compradora. Ambos têm o controle da economia. Que medidas vocês pensam tomar para limitar seu poder?

Thomas Sankara: Há uma primeira medida que consiste em adotar decretos e disposições, nós a rejeitamos porque é essencialmente burocrática. A segunda consiste em arrancar as massas populares do obscurantismo. É a esta tarefa que nos dedicamos.
Lutar contra o obscurantismo, isto permite a cada pessoa do Alto Volta elevar seu nível de consciência política, ser um povo em si e não para outros e isto não se faz sem dificuldades na medida em que o acesso ao conhecimento ainda é controlado pela burguesia e as forças feudais. Estamos decididos a enfrentá-las e para isso compreendemos que é necessário acelerar o processo de democratização a fim de botá-los para fora.

Isto não se faz sem cometer excessos, mas como poderia ser diferente? Estamos informados do que se passa no campo. Os camponeses ousam pela primeira vez dar parte às autoridades dos abusos de que são vítimas. Não vemos nisso uma delação, contrariamente a certas afirmações, mais do que isto trata-se de um começo de tomada de consciência entre nossos camponeses que entendem assim participar efetivamente da gestão cotidiana do poder.
Compreendemos que é necessário desmistificar estas forças do passado, apresentá-las ao nosso povo tais quais elas são. É por isso que somos a favor de uma imprensa responsável, militante, de uma rádio que nos permitirá fazer com que sejamos compreendidos até nos rincões mais afastados do país e nas línguas que nossos compatriotas entendem.

L´Humanité: O seu país vive no momento os “Comitês de defesa da Revolução”. Parece que estes servem também de refúgio a rematados antirrevolucionários. Como vocês pensam fazer para limpar as fileiras dos CDR para que eles possam realmente desempenhar seu papel?

Thomas Sankara: É verdade que há um pouco de tudo dentro dos CDR. Lá estão também reacionários que são habilmente infiltrados, assim como os oportunistas de esquerda. A dificuldade não se limita a essas duas categorias. É preciso compreender bem que os CDR constituem a arma essencial, as tropas de choque de primeira linha na batalha que nos permitirá fazer a revolução triunfar. Nós nos dedicamos também a purificá-los, ou seja, desembaraçá-los dos elementos contrarrevolucionários. Isto não pode ser feito senão pelo desenvolvimento paciente mas determinado da democratização de nossas estruturas. Já conseguimos alguns resultados!
Assim, algumas antigas autoridades foram destituídas sobre a base de fatos irrefutáveis apresentados pelos CDR. Em contrapartida, outros CDR viram suas práticas serem condenadas e foram obrigados a reeleger seus delegados e renovar suas direções. Há igualmente exageros de todo tipo. São normais e previsíveis.

Entre os quadros, o intelectual que sai do seu meio social pequeno-burguês para se juntar à revolução, e o trabalhador que viveu durante 23 anos sob um regime neocolonial, entre essas duas pessoas a compreensão e a prática da revolução não são as mesmas. Um pensa fazê-la com luvas brancas e o outro considera que ela deve dar-lhe a liberdade para cumprir todos os seus caprichos. Compreendemos muito bem esses comportamentos.

Nossa revolução venceu o fatalismo. Hoje o povo tem a possibilidade de se expressar. Hoje ele libera seus instintos. Amanhã, serão as consciências a ser libertadas e mobilizadas.

L´Humanité: Em sua opinião, que lugar os sindicatos devem ter no processo atual?

Thomas Sankara: No Alto Volta os sindicatos têm uma longa tradição de luta, embora não sejam homogêneos. Há os progressistas e também os reacionários. Estes últimos têm sido os braços seculares de alguns dirigentes sob os antigos regimes. No momento da revolução, não tivemos escolha. Não podíamos poupar nossas ações, sejam quais fossem as organizações em que se refugiavam, sejam os sindicatos ou os partidos clandestinos porque sabemos que eles não poupariam seus esforços para tentar abater-nos. De resto, pouco depois do 4 de agosto de 1983, um dirigente desses “sindicatos” proclamou alto e bom som que combateria nossa revolução abertamente, se fosse necessário.

Quanto aos sindicatos progressistas, cuja ação corresponde aos interesses populares, contamos com seu apoio para avançar. Por meio de sua ação mobilizadora, eles ocupam um lugar de destaque em nosso processo revolucionário. Em contrapartida, não queremos que entre os CDR e os sindicatos se instaure algum tipo de rivalidade. Opomo-nos a isso. No momento, não consideramos que possa haver do ponto de vista dos princípios revolucionários, oposição entre esses sindicatos e os CDR. Estamos persuadidos de que haverá oposições do ponto de vista subjetivo e vamos ter a coragem de combatê-las à luz do dia porque as denunciaremos como práticas do oportunismo de esquerda.

L´Humanité: Pouco antes de sua partida para Niamey (Capital do Níger. Nota do Tradutor.), em uma declaração em 28 outubro que alcançou grande repercussão, você disse que havia tentativas de desestabilização contra o Alto Volta. Podia falar mais sobre isto?

Thomas Sankara: Não tenho nada a acrescentar agora. Não queremos opor nosso povo a outros povos. Mas as manobras subversivas contra o Alto Volta são bastante reais e permanentes. Elas são nacionais e internacionais. Temos as provas disso. Mas não julgamos que seja oportuno divulgá-las no momento para não criar um clima de xenofobia em nosso povo.

Nós queremos circunscrever o mal em suas origens e dissociar claramente aqueles que nos atacam dos seus povos que nós consideramos povos irmãos, amigos. Esta é a razão pela qual não vamos propagar estas provas a fim de não apontar o dedo para determinada nacionalidade. Dito isto, eu confirmo solenemente a realidade desses complôs. Isto não decorre de uma simples análise lógica, mas é algo evidente para todo mundo, exceto para aqueles que dão mostras de miopia; isto decorre de investigações e de informações que militantes nos forneceram.  Constatamos, assim, que uma revolução justa jamais fica isolada. Isto nos reconforta.

L´Humanité: Como vê as relações com a França?  

Sankara e Mitterrand

Sankara com o então presidente francês, François Miterrand

Thomas Sankara: Nós queremos uma cooperação dinâmica, que floresça e permita que os franceses e o povo do Alto Volta se abram uns aos outros. Este tipo de cooperação só poderá acontecer se os franceses e o povo do Alto Volta se livrarem dos cálculos frios que se escondem por trás dos interesses de cada Estado. Se ambos estiverem convencidos de que toda forma de neocolonialismo, de imperialismo, de paternalismo está descartada deste tipo de relação.

Isto significa que é necessário que nossa dignidade seja respeitada, assim como nossa soberania. Isto também significa sobretudo que é necessário trabalharmos essencialmente para aproximar os nossos dois povos e não cultivar relações oficiais, protocolares. Somente desta forma poderemos ter de ambas as partes uma política consequente. A França que emergiu do 10 de maio de 1981 (eleição do socialista François Miterrand à Presidência da República. Nota do Tradutor) faz belas declarações que conquistam a simpatia dos povos africanos.

Mas o que nós desejamos é que o cotidiano possa estar em conformidade com essas declarações e as promessas feitas. Vocês se lembram das declarações feitas pelo Partido Socialista antes do 10 de maio de 1981, comparem-nas como que se faz concretamente hoje.

Certamente, não subestimo o peso do capitalismo internacional com tudo o que isto implica, mas ainda assim sustento o que afirmei.

O comportamento do governo da França surpreende, contraria nossas convicções e nossas esperanças, desde que ele continua a manter relações com a África do Sul (sob o regime do Apartheid, na época. Nota da Redação), quando ele envia suas tropas ao Chade para apoiar o regime de Hissène Habré. São constatações que nos fazem mal. Nós dizemos aos franceses, com toda a amizade, com toda a franqueza, a fim de permitir que nos compreendam melhor, assim como nós esperamos que nos façam críticas, que nos digam como agir para sermos melhor compreendidos por eles. A cooperação entre a França e o Alto Volta pode ser bela e exemplar com a condição de que aceitemos que nossos inimigos sejam condenados onde quer que se encontrem, mesmo que isto nos faça mal em razão de nossas alianças paralelas.

Tradução de José Reinaldo Carvalho, para Resistência

Partidos de esquerda do Brasil viram de perto a luta pela realização do Sonho Chinês

 

 


 
Conversação com vice-ministro Li Jun no Departamento Internacional do PCCh

Durante o mês de setembro, entre os dias 17 e 26, visitou a China uma delegação multipartidária de partidos da esquerda brasileira – Partido dos Trabalhadores (PT), Partido Democrático Trabalhista (PDT) e Partido Comunista do Brasil (PCdoB) – a convite do Departamento Internacional do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh).

Por José Reinaldo Carvalho

A delegação cumpriu no país asiático uma ampla e variada agenda de trabalho, meticulosamente organizada e executada com exemplar disciplina pelo Departamento Internacional do PCCh. O programa abrangeu conversações com dirigentes do Departamento Internacional do PCCh, do Gabinete de Estudos da História do Partido e da Fundação Chinesa pela Paz e o Desenvolvimento, além de dirigentes regionais de Guandong, Zhu Hai e Shanxi, com os quais discutiram sobre temas políticos, ideológicos, econômicos e sociais, em que as partes chinesa e brasileira exerceram a diplomacia entre partidos e povos, no âmbito de relações entre partidos fraternos. Os brasileiros visitaram grandes, médias e pequenas empresas, sítios históricos; lugares turísticos; obras sociais; organizações de base do Partido Comunista e do poder municipal.

A delegação multipartidária da esquerda brasileira

A delegação multipartidária da esquerda brasileira

Um país gigantesco

A China, potência emergente que hoje atrai as atenções e a admiração de todo o mundo, é um gigantesco país de 9,6 milhões de quilômetros quadrados e cerca de 1,4 bilhão de habitantes. Um país multiétnico, com 56 grupos étnicos, 22 dos quais com idioma e escrita próprios, sendo cinco deles oficialmente reconhecidos. A etnia majoritária, a Han, abarca 92% da população. A China conforma uma das mais antigas comunidades humanas, com mais de cinco mil anos de civilização e uma história escrita ininterruptamente durante 3,6 mil anos.

A muralha de Pinghiao na região de Shanxi

A muralha de Pinghiao na região de Shanxi

Crescimento econômico impetuoso

As autoridades chinesas e documentos oficiais continuam considerando a China um país em desenvolvimento. Mas já detém a segunda economia do mundo, o segundo maior PIB, um imenso mercado de consumo e um imenso potencial de desenvolvimento e produção industrial. Um exemplo singelo: a China produz 28 milhões de automóveis por ano e está abrindo novas Zonas Econômicas Especiais onde se instalam empresas de alta tecnologia. Promove intensamente a inovação e o empreendedorismo.
Em 1992, a China era responsável por apenas 2% da economia mundial, os Estados Unidos, 32%; o Japão, 19%; a Alemanha, 10%; a França, 7% e a Itália, 6%. Em 2017, os Estados Unidos seguem com 32%, ao passo que a China saltou para 20%; o Japão, 7%, a Alemanha, 6%, a França, 4%. Vale também a comparação com os países emergentes. A Índia é responsável por 4% da economia mundial e o Brasil por apenas 3%.

Desde 1978, quando começou a nova etapa da reforma e abertura, o PIB teve um crescimento médio anual de 8,1%. Considerados os últimos 30 anos, esse crescimento foi de 9,8%. O PIB per capita aumentou 32,4 vezes, a renda nacional, 985 vezes e a reserva em divisas, 14 mil vezes.

A evolução do PIB per capita dá a dimensão das transformações econômico-sociais pelas quais o país atravessou. Em 1949, quando foi fundada a República Popular da China, o PIB per capita era de 27 dólares; em 1978, ano do início da reforma e abertura, 190 dólares; trinta anos depois, 3,3 mil dólares. Hoje, o PIB per capita chinês está em torno dos nove mil dólares. A meta do governo é que atinja 12 mil dólares daqui a três anos.

As autoridades do Partido e do Estado atribuem o progresso econômico e social da China nas últimas décadas à reforma e abertura, equiparada a uma nova etapa da revolução, período em que se fortaleceu a independência nacional, o poder popular sob a direção do Partido Comunista e se promoveu a combinação entre a teoria do socialismo científico com a construção do socialismo com peculiaridades chinesas, o socialismo de economia de mercado, hoje enfrentando as tarefas da construção integral: política, econômica, social, cultural e ecológica. O governo e a sociedade chinesas estão intensamente mobilizados no aprofundamento da política de reforma e abertura, com ênfase em cinco aspectos: desenvolvimento inovador, coordenado, ecológico, aberto e compartilhado.

Relações de amizade

Bandeiras China e Brasil

As delegações do PT, PDT e PCdoB foram recebidas na tarde do dia 21 de setembro na sede do Departamento Internacional do PCCh, primeiramente pela senhora Fu Jie, subdiretora da América Latina e Caribe do departamento. “A China e o Brasil têm muito a conversar sobre a governança mundial e devem estar de mãos dadas nos Brics, G-20 e outros âmbitos multilaterais”, assinalou a diplomata do PCCh. “Os seus partidos são sempre bem-vindos à China, estando ou não no poder, pois nossas ideologias são semelhantes e a amizade do PCCh com os partidos de esquerda brasileiros é de longo prazo. Damos nosso apoio moral e queremos aprofundar a cooperação mútua”, assinalou Fu Jie.

O momento mais importante da visita foi o encontro com o senhor Li Jun, vice-ministro do PCCh, vice-chefe do Departamento Internacional, que após a audiência ofereceu um banquete à delegação multipartidária brasileira. Li ressaltou as boas relações de amizade com os três partidos e assinalou que esta visita “aprofundará ainda mais o conhecimento mútuo, a cooperação e as relações entre a China e o Brasil”.

O vice-ministro Li Jun fez uma exposição abrangente destacando que “em 97 anos de existência o Partido Comunista da China já enfrentou várias crises, algumas decorrentes dos cenários internacionais, outras por falta de experiência”.

Hoje, disse o vice-ministro Li, a China combina o socialismo com sua própria realidade, percorrendo “caminho próprio”. Ele conta que depois da tomada do poder o PCCh enfrentou “muitos desafios” e aponta que a adoção da economia planificada, o modelo soviético, “foi um erro”.

O dirigente chinês discorreu amplamente sobre as relações entre seu país e o Brasil, que ocupa, segundo ele, “uma posição estratégica nas relações da China com o exterior”. “Brasil e China – disse – são os dois maiores países em desenvolvimento, um no Oriente e o outro no Ocidente. O Brasil foi o primeiro país a estabelecer a parceria estratégica com a China e o primeiro na América Latina a estabelecer a parceria estratégica global com nosso país”.

Valorizando estas relações Li fez questão de ressaltar que “no século 21, especialmente durante os governos dos ex-presidentes Lula e Dilma, as relações entre o Brasil e a China entraram na sua melhor fase. Lula e Dilma contribuíram ativamente para isso e cultivaram amizade pessoal com nossos líderes”.

Para Li, ambos os países enfrentam agora “novas situações e novas oportunidades”. A China reitera a disposição para “aprofundar as relações, ampliar a cooperação, promover a complementaridade de vantagens e realizar benefícios mútuos, segundo a visão de ganha-ganha.

Referindo-se ao papel dos partidos de esquerda, o vice-ministro afirmou que “o PT, o PDT e o PCdoB são forças importantes no Brasil e desempenham papel significativo na vida política do país”. Reafirmou as relações de amizade e afirmou que o PCCh “está disposto a aprofundar as relações com esses três partidos, independentemente de estarem no governo ou na oposição, promovendo a cooperação em todos os níveis”. E expressou a convicção de que esses três partidos vão continuar a contribuir ativamente para fortalecer as relações entre ambos os países.

O vice-ministro Li proporcionou à delegação multipartidária da esquerda uma informação abrangente sobre o momento atual da China. “Estamos promovendo a construção econômica, política, cultural, social e ecológica, com a plena coordenação entre o Partido e o Estado”, com quatro metas abrangentes: “Construir uma sociedade moderadamente próspera; aprofundar a reforma, promover a governança conforme as leis, e tornar rigorosa a disciplina do Partido”. Deu ênfase aos cinco aspectos da concepção de desenvolvimento do secretário geral do PCCh, Xi Jinping: um desenvolvimento inovador, coordenado, ecológico, aberto e compartilhado. Segundo Li, “isto corresponde à nova fase de desenvolvimento, rumo a uma economia forte, à elevação do patamar de desenvolvimento da China e à satisfação das demandas do povo por bem-estar”.

Sobre o 19º Congresso nacional do PCCh, informou que fará o balanço dos últimos cinco anos e planificará os próximos cinco. Disse que o Congresso decidirá sobre mudanças estatutárias, incluindo os novos conceitos de desenvolvimento nos Estatutos. Para Li, “o 19º Congresso Nacional do PCCh reforçará a liderança do Partido, a ligação entre o Partido e o povo”. Informou ainda que a elevação do papel dirigente de Xi Jinping à categoria de “núcleo” é um “consenso de todo o Partido”. Destacou a necessidade de sistematizar as “novas experiências de governança e de atualizar o Partido de acordo com as novas realidades”.

Ao mencionar a questão do núcleo da direção partidária, o vice-ministro fez de passagem uma interessante reflexão sobre o Brasil: “Compreendo o papel de Lula. Para superar as crises, é muito importante o papel do líder que constitui o núcleo de um partido”.

Pela parte chinesa, também participaram das conversações, além de Li Jun e Fu Jie, os funcionários do Departamento Internacional Zhou Chao, Wang Fu Wei e Wang Yun Xiang.

A Grande Muralha da China

A Grande Muralha da China

O “segredo” chinês

Durante a visita a delegação multipartidária dos partidos brasileiros de esquerda assistiu a uma palestra proferida por Wang Hua. Em português fluente e com recursos retóricos e didáticos apreciáveis, o ex-diretor da América Latina e Caribe do Departamento Internacional do PCCh e atual diretor da Fundação Chinesa pela Paz e o Desenvolvimento, uma ONG que se dedica ao estudo de experiências externas e a cooperação e solidariedade com outros países, explicou o “segredo” do “milagre” chinês e os princípios que orientam o PCCh e o governo da República Popular da China.

Sempre seguindo a máxima de Deng Xiaoping de que “a verdade está nos fatos”, Wang exaltou os feitos de seu país sem ocultar os problemas. “O nosso desenvolvimento apresenta também aspectos negativos”, disse. “O país tem apenas 7% da terra cultivada e 6% da água potável do mundo, para uma população que representa 20% da humanidade; os recursos naturais são limitados em relação às dimensões da população, o desenvolvimento econômico é desequilibrado entre as regiões litorâneas e o interior, há desigualdades sociais, 43 milhões de pessoas vivendo na pobreza, o PIB per capita ainda é muito baixo, o país tem poucas marcas próprias de fama mundial e do ponto de vista da integração nacional, a China ainda é um grande país não unificado”, porque Taiwan ainda não voltou ao seio nacional da China e pesam sobre o país ameaças separatistas.

Quanto ao “segredo” do sucesso do modelo chinês, Wang é enfático: “não falamos de modelo porque estamos em experimentação”. E sintetiza o caminho que o país percorreu desde 1978. “Promovemos a reforma e a abertura, uma reforma em todos os terrenos e uma abertura verdadeira para atrair investimentos, tecnologia e experiência em gestão avançada. Tomamos a construção econômica como o elo principal da edificação do socialismo. Buscamos construir o socialismo com peculiaridades chinesas, passamos da economia planificada de modelo soviético para a economia socialista de mercado. Trata-se ainda da etapa primária do socialismo”, assevera. Wang explica que um dos “segredos” da experiência chinesa é a unidade do povo , a estabilidade nacional, o consenso político, o império da lei e a direção do PCCh. Segundo ele, “manteremos com firmeza o caminho socialista e a democracia popular; é inaceitável implantar aqui o modelo de democracia dos Estados Unidos. Persistiremos na direção do PCCh e no marxismo-leninismo, atualizado de acordo com a evolução e adaptado à realidade da China”. Documentos do PCCh referem-se à necessidade de “achinesar” o marxismo.

Diplomacia para a paz e o desenvolvimento

Cada vez mais ativo na cena política e diplomática internacional, o país mantém relações diplomáticas com cerca de 180 países. Por seu turno, o Partido Comunista da China que desenvolve uma diplomacia complementar e auxiliar à do Estado, relaciona-se com mais de 400 partidos políticos de mais de 140 países. A diplomacia chinesa, tal como os demais setores da atividade política estatal, vive uma nova etapa histórica desde 1978, quando se iniciou a nova época, a da reforma e abertura, sob a direção de Deng Xiaoping.

Nesta nova etapa, o esforço permanente da China é a construção de um ambiente internacional de paz e uma boa vizinhança, com a finalidade de reforçar o desenvolvimento econômico contínuo, seguro e rápido, ativamente integrado na vida política e econômica internacional. A grande nação asiática participa de mais de 100 organizações internacionais intergovernamentais, firmou mais de 300 tratados internacionais e já enviou mais de 10 mil pessoas para participar em 24 operações de manutenção da paz da ONU.

A China, ao participar ativamente da vida internacional, na condição de país em desenvolvimento, busca defender e promover os interesses dos países em vias de desenvolvimento, o que inclui os seus próprios, advogando a aplicação do princípio de equilíbrio entre direitos e obrigações, defendendo sempre a justiça nos assuntos internacionais, as negociações pacíficas, as consultas diplomáticas na resolução dos conflitos globais e regionais.

“A China chegou à compreensão de que não pode desenvolver-se sem o mundo e este não pode tornar-se próspero e estável sem a China. O futuro e o destino da China estão estreitamente ligados com o resto do mundo. Apesar de frequentes mudanças produzidas na situação internacional, a China promete que o governo e o povo chineses sempre manterão no alto a bandeira da paz, do desenvolvimento e da cooperação, seguirão uma política externa independente e de paz, salvaguardarão seus interesses nos campos da soberania, segurança e desenvolvimento, e se aterão aos propósitos que sua política externa persegue, propósitos de manter a paz mundial e promover o desenvolvimento comum” (Zhang Qingmin, “A Diplomacia da China”, China Intercontinental Press, 2011, edição em espanhol).

A partir do 18º Congresso Nacional do PCCh (2012) o Comitê Central do Partido, liderado pelo Secretário Geral, Xi Jinping, apresentou novas noções de política externa. A China passa a conduzir suas iniciativas diplomáticas como um país importante, desenvolvendo uma política externa que tem os seguintes pontos-chave: realizar o rejuvenescimento nacional e criar uma comunidade de futuro compartilhado; desenvolvimento pacífico; cooperação mutuamente benéfica; desenvolver parcerias como método-chave e concepção sobre justiça e ganho, segundo a qual se busca a equidade e a justiça, benefício mútuo e desenvolvimento comum.

A visão de política externa do Secretário Geral do PCCh, Xi Jinping, parte do princípio de que a revitalização da nação chinesa, seu rejuvenescimento nacional e desenvolvimento impetuoso são indissociáveis do progresso de toda a humanidade. Uma estratégia diplomática que serve à criação de “um destino compartilhado para a humanidade”, uma visão de longo prazo que começa a suscitar importantes debates nos think tanks de política externa pelo mundo.

Um dos principais aspectos desta visão estratégica é a iniciativa “Um cinturão, uma rota”, que visa à construção do “Cinturão Econômico da Rota da Seda”, para concertar esforços com os países concernentes na obtenção de benefícios compartilhados, através do livre comércio, da integração financeira, da infraestrutura integrada e dos intercâmbios entre povos.

Nos dias em que a delegação multipartidária brasileira visitava a China, foi lançado o livro “Novas conquistas dos direitos humanos na China (2012-2017)”, com introdução de Wang Yi, ministro das Relações Exteriores. “Os últimos cinco anos desde a realização do 18º Congresso do Partido Comunista da China em novembro de 2012 assinalaram uma extraordinária jornada pela China. O Comitê Central do PCCh tendo o camarada Xi Jinping como núcleo, conduziu o povo por todo o país na conquista de tremendas conquistas em todos os campos, incluindo os direitos humanos”, escreveu o ministro.

Segundo Wang Yi, houve um contínuo desenvolvimento da teoria sobre os direitos humanos, avançou a proteção desses direitos, aumentou o progresso econômico e o desenvolvimento social, reforçaram-se a democracia e o papel da lei. Além disso, é de assinalar, segundo o ministro, o maior envolvimento da China na governança internacional dos direitos humanos.

Partido de vanguarda

Outro ponto de destaque na agenda de trabalho da delegação multipartidária foi o encontro com Qi Biao, diretor do Gabinete de Estudos sobre a História do Partido. Autor de quatro livros sobre a construção do PCCh, proferiu aulas para dirigentes máximos do Partido, inclusive o atual secretário geral. Qi Biao fez uma palestra especial rica em informações sobre a história e a atualidade do Partido Comunista Chinês.

Fundado com 50 militantes, o PCCh tem hoje quase 90 milhões de membros, organizados em 4,5 milhões de núcleos de base. O PCCh autodefine-se como “partido de vanguarda”. Segundo o professor Qi, a direção do PCCh na vida do país é o “fator chave para transformar a China em um país promissor e próspero”.

A delegação multipartidária da esquerda brasileira encontrou o Partido Comunista Chinês imerso na preparação do seu 19º Congresso Naconal, que se realiza neste mês de outubro. Uma das principais questões do momento é o soerguimento de um sistema de “disciplina rigorosa”. O Professor Qi explicou em que consiste e por que o PCCh dá agora prioridade a este tema.
“A construção partidária tem altos e baixos. Desde a reforma e a abertura, com o aumento da riqueza gerou-se a corrupção no interior do Partido”, asseverou.

Referindo-se à recente abordagem do fenômeno, Qi pontuou: “Antes da chegada do atual secretário geral Xi Jinping (2012), estávamos vivendo uma fase crucial, até mais perigosa do que na época da queda da União Soviética, com a existência de grupos contrários à liderança do Comitê Central”.

Qi alertou que existem maciças pressões ocidentais, principalmente dos Estados Unidos, sobre o PCCh. E relatou a existência de graves problemas como as desigualdades sociais, o populismo e a corrupção, sacando a conclusão de que “é preciso afirmar a liderança do PCCh e aprofundar a reforma, também sob a liderança do Partido”.

O Professor expôs que os princípios da disciplina do Partido envolvem a ideologia, a organização, a prática, a política de quadros e o estabelecimento de normas rigorosas. “Em primeiro lugar, é preciso insistir na ideologia, na unidade ideológica, unidade de pensamento de todo o Partido, que tem ideologia única”. De acordo com ele, o PCCh não permite a existência de divisões e grupos, lição que se extrai da experiência negativa da URSS. “Aceitamos debates internos mas não ataques públicos ao Partido nem a publicização de segredos do Partido e do Estado. Tampouco aceitamos que militantes, quadros e dirigentes participem de atividades ilegais que afetam a imagem do Partido”.

O professor Qi cita que desde o 18º Congresso foram afastados 37 líderes do Partido e do Estado , além de cerca de 50 altas patentes das Forças Armadas. E alerta para o fato de que 280 dirigentes nacionais e locais cometeram abusos de poder, pelo que também sofreram sanções.

Como novidade da política de quadros, o PCCh estabeleceu a norma de que todos os seus dirigentes, inclusive o secretário geral, devem participar de reuniões de base e submeter-se a avaliações em reuniões especialmente convocadas com esta finalidade.
Está na ordem do dia também o combate dentro do Partido ao formalismo, ao burocratismo, ao luxo e à ostentação.

Qi informou à delegação que a prioridade nos esforços pela disciplina no Partido é o combate à corrupção.

Quanto à política de organização do Partido, subordinada ao fator ideológico, serão adotadas medidas para selecionar rigorosamente os novos ingressos, limitando a quantidade em nome da elevação da qualidade dos novos membros do Partido.

No 19º Congresso Nacional do PCCh, entre outras mudanças estatutárias, o secretário geral Xi Jinping será elevado à categoria de “núcleo” do Comitê Central e seu pensamento – considerado como o “marxismo-leninismo combinado com a realidade chinesa” – será definido como guia do Partido.

O Sonho Chinês e os Dois Centenários

Durante a visita da delegação dos partidos da esquerda brasileira na China, ficou evidente que a China avança, com ímpeto, audácia e espírito empreendedor para uma nova fase de desenvolvimento político, econômico e social, mantendo aceso o impulso e o propósito inicial com que realizou sua Revolução e instaurou em 1949 a República Popular. A impressão é de que está em curso uma nova Longa Marcha pela realização do Sonho Chinês, de revitalização e rejuvenescimento da nação.

O Partido, o Estado, as instituições de governo, as organizações de massas, os demais partidos políticos parceiros do PCCh e o povo chinês estão imersos em inauditos esforços pela realização dos objetivos da celebração dos Dois Centenários.

O primeiro deles é concluir a construção de uma sociedade moderadamente próspera em 2021, quando se completa o centenário da fundação do PCCh. O segundo é transformar a China num país socialista moderno, próspero, democrático, civilizado e harmonioso, em 2049, no centenário do triunfo da Revolução.

A Cidade Proibida

A Cidade Proibida

A delegação multipartidária brasileira teve a seguinte composição:

PT – Edinho Silva, prefeito de Araraquara (SP); Jonas Paulo Oliveira (do Diretório Nacional e secretário geral adjunto) e Juçara Dutra (do Diretório Nacional e secretária adjunta de Organização).

PDT – Brizola Neto (do Diretório Nacional e presidente do Diretório Municipal de São Gonçalo); Augusto Ribeiro (do Diretório Nacional e presidente do Diretório Municipal do RJ); Marli Mendonça (da Executiva Nacional e secretária geral da Ação da Mulher Trabalhista – AMT; William Rodrigues (do Diretório Nacional e e presidente da Juventude do PDT).

PCdoB – Nádia Campeão (da Comissão Política Nacional); Ronaldo Leite (do Comitê Central) e José Reinaldo Carvalho (do Secretariado Nacional, responsável pelas Relações Internacionais).

 
 
 

Partidos de esquerda do Brasil viram de perto a luta pela realização do Sonho Chinês

 

 


 
Conversação com vice-ministro Li Jun no Departamento Internacional do PCCh

Durante o mês de setembro, entre os dias 17 e 26, visitou a China uma delegação multipartidária de partidos da esquerda brasileira – Partido dos Trabalhadores (PT), Partido Democrático Trabalhista (PDT) e Partido Comunista do Brasil (PCdoB) – a convite do Departamento Internacional do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh).

Por José Reinaldo Carvalho

A delegação cumpriu no país asiático uma ampla e variada agenda de trabalho, meticulosamente organizada e executada com exemplar disciplina pelo Departamento Internacional do PCCh. O programa abrangeu conversações com dirigentes do Departamento Internacional do PCCh, do Gabinete de Estudos da História do Partido e da Fundação Chinesa pela Paz e o Desenvolvimento, além de dirigentes regionais de Guandong, Zhu Hai e Shanxi, com os quais discutiram sobre temas políticos, ideológicos, econômicos e sociais, em que as partes chinesa e brasileira exerceram a diplomacia entre partidos e povos, no âmbito de relações entre partidos fraternos. Os brasileiros visitaram grandes, médias e pequenas empresas, sítios históricos; lugares turísticos; obras sociais; organizações de base do Partido Comunista e do poder municipal.

A delegação multipartidária da esquerda brasileira

A delegação multipartidária da esquerda brasileira

Um país gigantesco

A China, potência emergente que hoje atrai as atenções e a admiração de todo o mundo, é um gigantesco país de 9,6 milhões de quilômetros quadrados e cerca de 1,4 bilhão de habitantes. Um país multiétnico, com 56 grupos étnicos, 22 dos quais com idioma e escrita próprios, sendo cinco deles oficialmente reconhecidos. A etnia majoritária, a Han, abarca 92% da população. A China conforma uma das mais antigas comunidades humanas, com mais de cinco mil anos de civilização e uma história escrita ininterruptamente durante 3,6 mil anos.

A muralha de Pinghiao na região de Shanxi

A muralha de Pinghiao na região de Shanxi

Crescimento econômico impetuoso

As autoridades chinesas e documentos oficiais continuam considerando a China um país em desenvolvimento. Mas já detém a segunda economia do mundo, o segundo maior PIB, um imenso mercado de consumo e um imenso potencial de desenvolvimento e produção industrial. Um exemplo singelo: a China produz 28 milhões de automóveis por ano e está abrindo novas Zonas Econômicas Especiais onde se instalam empresas de alta tecnologia. Promove intensamente a inovação e o empreendedorismo.
Em 1992, a China era responsável por apenas 2% da economia mundial, os Estados Unidos, 32%; o Japão, 19%; a Alemanha, 10%; a França, 7% e a Itália, 6%. Em 2017, os Estados Unidos seguem com 32%, ao passo que a China saltou para 20%; o Japão, 7%, a Alemanha, 6%, a França, 4%. Vale também a comparação com os países emergentes. A Índia é responsável por 4% da economia mundial e o Brasil por apenas 3%.

Desde 1978, quando começou a nova etapa da reforma e abertura, o PIB teve um crescimento médio anual de 8,1%. Considerados os últimos 30 anos, esse crescimento foi de 9,8%. O PIB per capita aumentou 32,4 vezes, a renda nacional, 985 vezes e a reserva em divisas, 14 mil vezes.

A evolução do PIB per capita dá a dimensão das transformações econômico-sociais pelas quais o país atravessou. Em 1949, quando foi fundada a República Popular da China, o PIB per capita era de 27 dólares; em 1978, ano do início da reforma e abertura, 190 dólares; trinta anos depois, 3,3 mil dólares. Hoje, o PIB per capita chinês está em torno dos nove mil dólares. A meta do governo é que atinja 12 mil dólares daqui a três anos.

As autoridades do Partido e do Estado atribuem o progresso econômico e social da China nas últimas décadas à reforma e abertura, equiparada a uma nova etapa da revolução, período em que se fortaleceu a independência nacional, o poder popular sob a direção do Partido Comunista e se promoveu a combinação entre a teoria do socialismo científico com a construção do socialismo com peculiaridades chinesas, o socialismo de economia de mercado, hoje enfrentando as tarefas da construção integral: política, econômica, social, cultural e ecológica. O governo e a sociedade chinesas estão intensamente mobilizados no aprofundamento da política de reforma e abertura, com ênfase em cinco aspectos: desenvolvimento inovador, coordenado, ecológico, aberto e compartilhado.

Relações de amizade

Bandeiras China e Brasil

As delegações do PT, PDT e PCdoB foram recebidas na tarde do dia 21 de setembro na sede do Departamento Internacional do PCCh, primeiramente pela senhora Fu Jie, subdiretora da América Latina e Caribe do departamento. “A China e o Brasil têm muito a conversar sobre a governança mundial e devem estar de mãos dadas nos Brics, G-20 e outros âmbitos multilaterais”, assinalou a diplomata do PCCh. “Os seus partidos são sempre bem-vindos à China, estando ou não no poder, pois nossas ideologias são semelhantes e a amizade do PCCh com os partidos de esquerda brasileiros é de longo prazo. Damos nosso apoio moral e queremos aprofundar a cooperação mútua”, assinalou Fu Jie.

O momento mais importante da visita foi o encontro com o senhor Li Jun, vice-ministro do PCCh, vice-chefe do Departamento Internacional, que após a audiência ofereceu um banquete à delegação multipartidária brasileira. Li ressaltou as boas relações de amizade com os três partidos e assinalou que esta visita “aprofundará ainda mais o conhecimento mútuo, a cooperação e as relações entre a China e o Brasil”.

O vice-ministro Li Jun fez uma exposição abrangente destacando que “em 97 anos de existência o Partido Comunista da China já enfrentou várias crises, algumas decorrentes dos cenários internacionais, outras por falta de experiência”.

Hoje, disse o vice-ministro Li, a China combina o socialismo com sua própria realidade, percorrendo “caminho próprio”. Ele conta que depois da tomada do poder o PCCh enfrentou “muitos desafios” e aponta que a adoção da economia planificada, o modelo soviético, “foi um erro”.

O dirigente chinês discorreu amplamente sobre as relações entre seu país e o Brasil, que ocupa, segundo ele, “uma posição estratégica nas relações da China com o exterior”. “Brasil e China – disse – são os dois maiores países em desenvolvimento, um no Oriente e o outro no Ocidente. O Brasil foi o primeiro país a estabelecer a parceria estratégica com a China e o primeiro na América Latina a estabelecer a parceria estratégica global com nosso país”.

Valorizando estas relações Li fez questão de ressaltar que “no século 21, especialmente durante os governos dos ex-presidentes Lula e Dilma, as relações entre o Brasil e a China entraram na sua melhor fase. Lula e Dilma contribuíram ativamente para isso e cultivaram amizade pessoal com nossos líderes”.

Para Li, ambos os países enfrentam agora “novas situações e novas oportunidades”. A China reitera a disposição para “aprofundar as relações, ampliar a cooperação, promover a complementaridade de vantagens e realizar benefícios mútuos, segundo a visão de ganha-ganha.

Referindo-se ao papel dos partidos de esquerda, o vice-ministro afirmou que “o PT, o PDT e o PCdoB são forças importantes no Brasil e desempenham papel significativo na vida política do país”. Reafirmou as relações de amizade e afirmou que o PCCh “está disposto a aprofundar as relações com esses três partidos, independentemente de estarem no governo ou na oposição, promovendo a cooperação em todos os níveis”. E expressou a convicção de que esses três partidos vão continuar a contribuir ativamente para fortalecer as relações entre ambos os países.

O vice-ministro Li proporcionou à delegação multipartidária da esquerda uma informação abrangente sobre o momento atual da China. “Estamos promovendo a construção econômica, política, cultural, social e ecológica, com a plena coordenação entre o Partido e o Estado”, com quatro metas abrangentes: “Construir uma sociedade moderadamente próspera; aprofundar a reforma, promover a governança conforme as leis, e tornar rigorosa a disciplina do Partido”. Deu ênfase aos cinco aspectos da concepção de desenvolvimento do secretário geral do PCCh, Xi Jinping: um desenvolvimento inovador, coordenado, ecológico, aberto e compartilhado. Segundo Li, “isto corresponde à nova fase de desenvolvimento, rumo a uma economia forte, à elevação do patamar de desenvolvimento da China e à satisfação das demandas do povo por bem-estar”.

Sobre o 19º Congresso nacional do PCCh, informou que fará o balanço dos últimos cinco anos e planificará os próximos cinco. Disse que o Congresso decidirá sobre mudanças estatutárias, incluindo os novos conceitos de desenvolvimento nos Estatutos. Para Li, “o 19º Congresso Nacional do PCCh reforçará a liderança do Partido, a ligação entre o Partido e o povo”. Informou ainda que a elevação do papel dirigente de Xi Jinping à categoria de “núcleo” é um “consenso de todo o Partido”. Destacou a necessidade de sistematizar as “novas experiências de governança e de atualizar o Partido de acordo com as novas realidades”.

Ao mencionar a questão do núcleo da direção partidária, o vice-ministro fez de passagem uma interessante reflexão sobre o Brasil: “Compreendo o papel de Lula. Para superar as crises, é muito importante o papel do líder que constitui o núcleo de um partido”.

Pela parte chinesa, também participaram das conversações, além de Li Jun e Fu Jie, os funcionários do Departamento Internacional Zhou Chao, Wang Fu Wei e Wang Yun Xiang.

A Grande Muralha da China

A Grande Muralha da China

O “segredo” chinês

Durante a visita a delegação multipartidária dos partidos brasileiros de esquerda assistiu a uma palestra proferida por Wang Hua. Em português fluente e com recursos retóricos e didáticos apreciáveis, o ex-diretor da América Latina e Caribe do Departamento Internacional do PCCh e atual diretor da Fundação Chinesa pela Paz e o Desenvolvimento, uma ONG que se dedica ao estudo de experiências externas e a cooperação e solidariedade com outros países, explicou o “segredo” do “milagre” chinês e os princípios que orientam o PCCh e o governo da República Popular da China.

Sempre seguindo a máxima de Deng Xiaoping de que “a verdade está nos fatos”, Wang exaltou os feitos de seu país sem ocultar os problemas. “O nosso desenvolvimento apresenta também aspectos negativos”, disse. “O país tem apenas 7% da terra cultivada e 6% da água potável do mundo, para uma população que representa 20% da humanidade; os recursos naturais são limitados em relação às dimensões da população, o desenvolvimento econômico é desequilibrado entre as regiões litorâneas e o interior, há desigualdades sociais, 43 milhões de pessoas vivendo na pobreza, o PIB per capita ainda é muito baixo, o país tem poucas marcas próprias de fama mundial e do ponto de vista da integração nacional, a China ainda é um grande país não unificado”, porque Taiwan ainda não voltou ao seio nacional da China e pesam sobre o país ameaças separatistas.

Quanto ao “segredo” do sucesso do modelo chinês, Wang é enfático: “não falamos de modelo porque estamos em experimentação”. E sintetiza o caminho que o país percorreu desde 1978. “Promovemos a reforma e a abertura, uma reforma em todos os terrenos e uma abertura verdadeira para atrair investimentos, tecnologia e experiência em gestão avançada. Tomamos a construção econômica como o elo principal da edificação do socialismo. Buscamos construir o socialismo com peculiaridades chinesas, passamos da economia planificada de modelo soviético para a economia socialista de mercado. Trata-se ainda da etapa primária do socialismo”, assevera. Wang explica que um dos “segredos” da experiência chinesa é a unidade do povo , a estabilidade nacional, o consenso político, o império da lei e a direção do PCCh. Segundo ele, “manteremos com firmeza o caminho socialista e a democracia popular; é inaceitável implantar aqui o modelo de democracia dos Estados Unidos. Persistiremos na direção do PCCh e no marxismo-leninismo, atualizado de acordo com a evolução e adaptado à realidade da China”. Documentos do PCCh referem-se à necessidade de “achinesar” o marxismo.

Diplomacia para a paz e o desenvolvimento

Cada vez mais ativo na cena política e diplomática internacional, o país mantém relações diplomáticas com cerca de 180 países. Por seu turno, o Partido Comunista da China que desenvolve uma diplomacia complementar e auxiliar à do Estado, relaciona-se com mais de 400 partidos políticos de mais de 140 países. A diplomacia chinesa, tal como os demais setores da atividade política estatal, vive uma nova etapa histórica desde 1978, quando se iniciou a nova época, a da reforma e abertura, sob a direção de Deng Xiaoping.

Nesta nova etapa, o esforço permanente da China é a construção de um ambiente internacional de paz e uma boa vizinhança, com a finalidade de reforçar o desenvolvimento econômico contínuo, seguro e rápido, ativamente integrado na vida política e econômica internacional. A grande nação asiática participa de mais de 100 organizações internacionais intergovernamentais, firmou mais de 300 tratados internacionais e já enviou mais de 10 mil pessoas para participar em 24 operações de manutenção da paz da ONU.

A China, ao participar ativamente da vida internacional, na condição de país em desenvolvimento, busca defender e promover os interesses dos países em vias de desenvolvimento, o que inclui os seus próprios, advogando a aplicação do princípio de equilíbrio entre direitos e obrigações, defendendo sempre a justiça nos assuntos internacionais, as negociações pacíficas, as consultas diplomáticas na resolução dos conflitos globais e regionais.

“A China chegou à compreensão de que não pode desenvolver-se sem o mundo e este não pode tornar-se próspero e estável sem a China. O futuro e o destino da China estão estreitamente ligados com o resto do mundo. Apesar de frequentes mudanças produzidas na situação internacional, a China promete que o governo e o povo chineses sempre manterão no alto a bandeira da paz, do desenvolvimento e da cooperação, seguirão uma política externa independente e de paz, salvaguardarão seus interesses nos campos da soberania, segurança e desenvolvimento, e se aterão aos propósitos que sua política externa persegue, propósitos de manter a paz mundial e promover o desenvolvimento comum” (Zhang Qingmin, “A Diplomacia da China”, China Intercontinental Press, 2011, edição em espanhol).

A partir do 18º Congresso Nacional do PCCh (2012) o Comitê Central do Partido, liderado pelo Secretário Geral, Xi Jinping, apresentou novas noções de política externa. A China passa a conduzir suas iniciativas diplomáticas como um país importante, desenvolvendo uma política externa que tem os seguintes pontos-chave: realizar o rejuvenescimento nacional e criar uma comunidade de futuro compartilhado; desenvolvimento pacífico; cooperação mutuamente benéfica; desenvolver parcerias como método-chave e concepção sobre justiça e ganho, segundo a qual se busca a equidade e a justiça, benefício mútuo e desenvolvimento comum.

A visão de política externa do Secretário Geral do PCCh, Xi Jinping, parte do princípio de que a revitalização da nação chinesa, seu rejuvenescimento nacional e desenvolvimento impetuoso são indissociáveis do progresso de toda a humanidade. Uma estratégia diplomática que serve à criação de “um destino compartilhado para a humanidade”, uma visão de longo prazo que começa a suscitar importantes debates nos think tanks de política externa pelo mundo.

Um dos principais aspectos desta visão estratégica é a iniciativa “Um cinturão, uma rota”, que visa à construção do “Cinturão Econômico da Rota da Seda”, para concertar esforços com os países concernentes na obtenção de benefícios compartilhados, através do livre comércio, da integração financeira, da infraestrutura integrada e dos intercâmbios entre povos.

Nos dias em que a delegação multipartidária brasileira visitava a China, foi lançado o livro “Novas conquistas dos direitos humanos na China (2012-2017)”, com introdução de Wang Yi, ministro das Relações Exteriores. “Os últimos cinco anos desde a realização do 18º Congresso do Partido Comunista da China em novembro de 2012 assinalaram uma extraordinária jornada pela China. O Comitê Central do PCCh tendo o camarada Xi Jinping como núcleo, conduziu o povo por todo o país na conquista de tremendas conquistas em todos os campos, incluindo os direitos humanos”, escreveu o ministro.

Segundo Wang Yi, houve um contínuo desenvolvimento da teoria sobre os direitos humanos, avançou a proteção desses direitos, aumentou o progresso econômico e o desenvolvimento social, reforçaram-se a democracia e o papel da lei. Além disso, é de assinalar, segundo o ministro, o maior envolvimento da China na governança internacional dos direitos humanos.

Partido de vanguarda

Outro ponto de destaque na agenda de trabalho da delegação multipartidária foi o encontro com Qi Biao, diretor do Gabinete de Estudos sobre a História do Partido. Autor de quatro livros sobre a construção do PCCh, proferiu aulas para dirigentes máximos do Partido, inclusive o atual secretário geral. Qi Biao fez uma palestra especial rica em informações sobre a história e a atualidade do Partido Comunista Chinês.

Fundado com 50 militantes, o PCCh tem hoje quase 90 milhões de membros, organizados em 4,5 milhões de núcleos de base. O PCCh autodefine-se como “partido de vanguarda”. Segundo o professor Qi, a direção do PCCh na vida do país é o “fator chave para transformar a China em um país promissor e próspero”.

A delegação multipartidária da esquerda brasileira encontrou o Partido Comunista Chinês imerso na preparação do seu 19º Congresso Naconal, que se realiza neste mês de outubro. Uma das principais questões do momento é o soerguimento de um sistema de “disciplina rigorosa”. O Professor Qi explicou em que consiste e por que o PCCh dá agora prioridade a este tema.
“A construção partidária tem altos e baixos. Desde a reforma e a abertura, com o aumento da riqueza gerou-se a corrupção no interior do Partido”, asseverou.

Referindo-se à recente abordagem do fenômeno, Qi pontuou: “Antes da chegada do atual secretário geral Xi Jinping (2012), estávamos vivendo uma fase crucial, até mais perigosa do que na época da queda da União Soviética, com a existência de grupos contrários à liderança do Comitê Central”.

Qi alertou que existem maciças pressões ocidentais, principalmente dos Estados Unidos, sobre o PCCh. E relatou a existência de graves problemas como as desigualdades sociais, o populismo e a corrupção, sacando a conclusão de que “é preciso afirmar a liderança do PCCh e aprofundar a reforma, também sob a liderança do Partido”.

O Professor expôs que os princípios da disciplina do Partido envolvem a ideologia, a organização, a prática, a política de quadros e o estabelecimento de normas rigorosas. “Em primeiro lugar, é preciso insistir na ideologia, na unidade ideológica, unidade de pensamento de todo o Partido, que tem ideologia única”. De acordo com ele, o PCCh não permite a existência de divisões e grupos, lição que se extrai da experiência negativa da URSS. “Aceitamos debates internos mas não ataques públicos ao Partido nem a publicização de segredos do Partido e do Estado. Tampouco aceitamos que militantes, quadros e dirigentes participem de atividades ilegais que afetam a imagem do Partido”.

O professor Qi cita que desde o 18º Congresso foram afastados 37 líderes do Partido e do Estado , além de cerca de 50 altas patentes das Forças Armadas. E alerta para o fato de que 280 dirigentes nacionais e locais cometeram abusos de poder, pelo que também sofreram sanções.

Como novidade da política de quadros, o PCCh estabeleceu a norma de que todos os seus dirigentes, inclusive o secretário geral, devem participar de reuniões de base e submeter-se a avaliações em reuniões especialmente convocadas com esta finalidade.
Está na ordem do dia também o combate dentro do Partido ao formalismo, ao burocratismo, ao luxo e à ostentação.

Qi informou à delegação que a prioridade nos esforços pela disciplina no Partido é o combate à corrupção.

Quanto à política de organização do Partido, subordinada ao fator ideológico, serão adotadas medidas para selecionar rigorosamente os novos ingressos, limitando a quantidade em nome da elevação da qualidade dos novos membros do Partido.

No 19º Congresso Nacional do PCCh, entre outras mudanças estatutárias, o secretário geral Xi Jinping será elevado à categoria de “núcleo” do Comitê Central e seu pensamento – considerado como o “marxismo-leninismo combinado com a realidade chinesa” – será definido como guia do Partido.

O Sonho Chinês e os Dois Centenários

Durante a visita da delegação dos partidos da esquerda brasileira na China, ficou evidente que a China avança, com ímpeto, audácia e espírito empreendedor para uma nova fase de desenvolvimento político, econômico e social, mantendo aceso o impulso e o propósito inicial com que realizou sua Revolução e instaurou em 1949 a República Popular. A impressão é de que está em curso uma nova Longa Marcha pela realização do Sonho Chinês, de revitalização e rejuvenescimento da nação.

O Partido, o Estado, as instituições de governo, as organizações de massas, os demais partidos políticos parceiros do PCCh e o povo chinês estão imersos em inauditos esforços pela realização dos objetivos da celebração dos Dois Centenários.

O primeiro deles é concluir a construção de uma sociedade moderadamente próspera em 2021, quando se completa o centenário da fundação do PCCh. O segundo é transformar a China num país socialista moderno, próspero, democrático, civilizado e harmonioso, em 2049, no centenário do triunfo da Revolução.

A Cidade Proibida

A Cidade Proibida

A delegação multipartidária brasileira teve a seguinte composição:

PT – Edinho Silva, prefeito de Araraquara (SP); Jonas Paulo Oliveira (do Diretório Nacional e secretário geral adjunto) e Juçara Dutra (do Diretório Nacional e secretária adjunta de Organização).

PDT – Brizola Neto (do Diretório Nacional e presidente do Diretório Municipal de São Gonçalo); Augusto Ribeiro (do Diretório Nacional e presidente do Diretório Municipal do RJ); Marli Mendonça (da Executiva Nacional e secretária geral da Ação da Mulher Trabalhista – AMT; William Rodrigues (do Diretório Nacional e e presidente da Juventude do PDT).

PCdoB – Nádia Campeão (da Comissão Política Nacional); Ronaldo Leite (do Comitê Central) e José Reinaldo Carvalho (do Secretariado Nacional, responsável pelas Relações Internacionais).

 
 
 

Comunistas convocam encontro para debater projeto de resolução internacionalista do 14º congresso do PCdoB

 

 

O Partido Comunista do Brasil convocou para o dia 5 de agosto próximo o Encontro Nacional sobre Questões Internacionais.

O evento, voltado para militantes e quadros do Partido, membros do Comitê Central e de outras instâncias diretivas, é uma das tarefas preparatórias do 14º Congresso, que se realizará em novembro próximo.

No último fim de semana, entre os dias 7 e 9 de julho, o Comitê Central do Partido aprovou o Projeto de Resolução Política do congresso, que tem como primeiro eixo a situação internacional. “O documento faz uma análise multilateral sobre os conflitos e tensões no mundo, a ofensiva imperialista e a luta dos povos”, informa o secretário de Política e Relações Internacionais do PCdoB, José Reinaldo Carvalho.

O projeto de resolução destaca a formação de uma nova configuração política internacional, atualiza o exame sobre a crise sistêmica e estrutural do capitalismo, assinala os conflitos políticos e a ofensiva do imperialismo contra os povos, destacadamente o cenário da América Latina, a luta anticapitalista e anti-imperialista dos trabalhadores e povos e o internacionalismo do PCdoB.

“A ofensiva do imperialismo e das forças reacionárias põe objetivamente na ordem do dia a necessidade de fortalecer a luta política no âmbito internacional e vincar ainda mais o caráter internacionalista e anti-imperialista das ações do Partido neste âmbito”, destaca José Reinaldo, ao reiterar que “o PCdoB tem como um de seus princípios fundamentais o internacionalismo proletário, com rica experiência acumulada neste terreno”.

O Projeto de Resolução Política destaca que o PCdoB “apoia as políticas e iniciativas contra-hegemônicas em defesa da paz, da autodeterminação das nações, do desenvolvimento soberano com justiça social, do direito internacional, da democratização das relações internacionais, que têm lugar no âmbito de países, tais como o Brics e a Celac, e de organismos multilaterais”. O secretário internacional do PCdoB ressalta que “a causa nacional é parte indissociável da luta anti-imperialista e pelo socialismo”.

O secretário internacional do PCdoB intervém no 18º Encontro de Paertidos Comunistas, no Vietnã, em outubro de 2016nal

O Partido Comunista do Brasil é ativo partícipe de encontros e coordenações de partidos comunistas e outras forças revolucionárias e progressistas. Tem priorizado sua ação no âmbito do Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários e do Foro de São Paulo. “O 14º Congresso reitera o compromisso com a solidariedade para com os povos em luta pela paz, a soberania nacional, a justiça social e a revolução política e social. No exercício das suas tarefas internacionalistas, o PCdoB participa em encontros de partidos comunistas, de convergência entre forças amplas de esquerda e em movimentos anti-imperialistas. Ao longo dos anos, a ação internacionalista dos comunistas brasileiros intensificou-se, diversificou-se, ampliou-se, projetando o nosso Partido como uma destacada força no cenário do movimento comunista internacional e da luta anti-imperialista, com a perspectiva do socialismo, ideal de emancipação dos trabalhadores e dos povos. Nas relações com o conjunto do movimento comunista, seja no âmbito multilateral, seja no bilateral, o PCdoB atém-se ao método da unidade, independência, igualdade, do respeito mútuo e da não interferência nos assuntos internos de outros partidos e organizações” –  afirma o Projeto de Resolução Política. O PCdoB, ao mesmo tempo em que reafirma que são artificiais as tentativas de impor estratégias e táticas rígidas ao conjunto do movimento comunista, defende a intensificação dos intercâmbios de opiniões e experiências entre partidos comunistas, revolucionários e progressistas.

O documento assinala que “situação internacional é caracterizada por instabilidade, imprevisibilidade, graves tensões e ameaças à paz”. Na opinião dos comunistas, “o mundo vive uma crise civilizatória, decorrente das contradições do sistema capitalista”. De acordo com José Reinaldo, “o desenvolvimento da situação internacional ratifica as análises e resoluções do último congresso do Partido, quanto à emergência de novos polos de poder econômico e geopolítico e a formação de novas configurações de forças”, expressa. “É também um traço saliente da situação em curso a “brutal ofensiva imperialista e uma forte onda política conservadora, contra as quais os povos se insurgem em tenaz resistência e amplas lutas”, afirma o dirigente, que alimenta a expectativa de que o 14º Congresso “reforçará o empenho dos comunistas na luta pela paz, contra o imperialismo, a reação mundial e pelo socialismo”.

O Projeto de Resolução Política dedica atenção ao desenvolvimento da crise do capitalismo. Com agudo caráter de classe e rigor teórico, o documento do Comitê Central analisa este fenômeno no quadro do desenvolvimento das leis objetivas do sistema capitalista. “Uma grave e prolongada crise estrutural, indissociável de sua natureza de classe e das contradições que lhe são inerentes. Sua singularidade é a dimensão inédita de um fenômeno que constitui uma das características do capitalismo em sua fase imperialista: a hipertrofia do capital financeiro”.

Mais adiante, o Projeto de Resolução Política aponta a relação da crise com “mecanismos de obtenção de superlucros, de concorrência desenfreada pela produtividade do trabalho, de extração da mais-valia absoluta e relativa, de acumulação de riqueza num polo e expansão da pobreza em outro, de tendência à queda da taxa média de lucro, de superprodução relativa”. E destaca que a “crise estrutural e sistêmica ressalta, como características essenciais da etapa imperialista e da crise atual, o predomínio do parasitismo financeiro, a concentração e centralização do capital, a divisão dos mercados entre os grandes conglomerados monopolistas-financeiros, o rentismo, a especulação, a extrema exploração dos trabalhadores, a destruição de forças produtivas, o desemprego em massa e o uso da inovação tecnológica e científica para aumentar os lucros e intensificar a exploração dos trabalhadores”.

Os comunistas denunciam que o caminho percorrido sob o comando do grande capital monopolista-financeiro é o da “adoção de uma espécie de ajuste de imensas proporções: o neoliberalismo em escala exponencial, com implicações devastadoras para as soberanias nacionais e os direitos dos trabalhadores, cujo nível de vida se degrada continuamente. A burguesia reage às perturbações econômicas radicalizando ainda mais o neoliberalismo. Na Europa, prossegue o desmantelamento do chamado Estado de Bem-Estar Social. O direito do trabalho também está sendo destroçado, a precarização avança e aspectos das relações sociais de produção retrocedem às condições existentes nos primórdios do capitalismo”.

O Projeto de Resolução Política do 14º Congresso adverte para que a constatação sobre a emergência de múltiplos polos de poder econômico e geopolítico não faça despertar ilusões quanto à geração espontânea de um “equilíbrio de poder” ou à “convivência harmoniosa entre forças de classes e poderes nacionais antagônicos”.

O documento assinala que um elemento essencial da situação internacional é “a ofensiva do imperialismo estadunidense e seus aliados contra os direitos e a soberania dos povos, que implica golpes, intervenções e guerras, sempre resultando em violação da soberania, do direito internacional e ameaça a direitos dos povos e à paz”.

O PCdoB adverte que o ciclo progressista latino-americano está sob ataque. A região conheceu nas duas últimas décadas um ciclo progressista cujo ponto inicial foi a eleição de Hugo Chávez para a Presidência da Venezuela em 1998. Desde aquele ano em que Chávez se elegeu, forças progressistas chegaram ao governo nacional através do voto: Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Bolívia, Nicarágua, Equador, Paraguai, Honduras, El Salvador e República Dominicana. “Foi uma onda progressista que repercutiu em toda a região, alterando significativamente a correlação de forças e contrapondo-se ao poder do imperialismo estadunidense e das classes dominantes reacionárias”, diz José Reinaldo.

Agora, “está em curso uma ofensiva para liquidar essas conquistas. As forças reacionárias locais e o imperialismo estadunidense exploram as dificuldades econômicas e sabotam a economia com fins políticos”, afirma o documento.

Venezuela bandeira

Os comunistas brasileiros estão atentos com a situação na Venezuela, onde o imperialismo e as oligarquias recorrem a métodos abertamente terroristas, contando para isso com o apoio e o incentivo da mídia a seu serviço. “A Revolução Bolivariana está diante do desafio de restaurar a estabilidade econômica e política, fortalecer o diálogo e a unidade no seio do povo e seguir aprofundando as transformações políticas e sociais. Reafirmamos nossa plena solidariedade com o governo do presidente Nicolás Maduro e à convocação da Assembleia Nacional Constituinte”, diz a direção do PCdoB, cujo documento destaca ademais os êxitos da Revolução Cubana, ao mesmo tempo em que o país se encontra no alvo da ofensiva do imperialismo e ainda sob bloqueio econômico. A nova administração estadunidense adotou medidas restritivas ao comércio e ao turismo, que afetam os acordos feitos entre o governo socialista e o governo estadunidense anterior.

Manifestação do Primeiro de Maio em Havana

Manifestação do Primeiro de Maio em Havana

O documento aborda a luta dos trabalhadores e povos, que se desenvolve no contexto da crise do capitalismo e da intensificação dos conflitos geopolíticos: “A intensificação da ofensiva imperialista contra direitos, liberdades e soberania nacional desperta a luta democrática, nacional e libertadora dos povos. De variadas características e formas, variados graus de intensidade, composição nacional e social, é uma luta de classes multilateral, combinada com fatores democráticos, nacionais e sociais, que converge para o leito do anti-imperialismo. Isto impõe a busca de alternativas que assegurem a soberania das nações, a prosperidade e o desenvolvimento dos países, a integração assentada na cooperação mútua entre Estados e povos, a democracia, os direitos sociais e a paz”. E arremata: “Num quadro adverso, intensifica-se objetivamente a luta de classes, que é – em sentido amplo, incluindo neste conceito a luta anti-imperialista – um dos traços que caracterizam o momento histórico”.

Lênin e a revolução

O capítulo internacional do Projeto de Resolução Política do 14º Congresso do PCdoB conclui reafirmando os ideais e o papel histórico da Revolução russa que comemora seu centenário neste ano: “Por uma feliz coincidência, o nosso 14º Congresso realiza-se no momento em que em todo o mundo são feitas justas homenagens ao centenário da Grande Revolução Socialista Soviética. Destacamos seu caráter internacionalista e a grande influência que exerceu ao impulsionar as lutas libertadoras ao longo do século 20. A Revolução Soviética representou um apoio colossal aos trabalhadores e povos em todo o mundo. Nenhum outro acontecimento político-social materializou com tamanha dimensão a palavra de ordem lançada seis décadas antes por Marx: “Proletários de todos os países, uni-vos!”. A Revolução Socialista de 1917 teve extraordinário impacto internacional, exerceu influência direta sobre acontecimentos subsequentes, mudou a face do mundo e deixou marca indelével em todo o século 20.

Para os comunistas brasileiros, a Revolução triunfante em 1917, seu rico legado, bem como as lições extraídas dos erros e insuficiências, serão sempre uma fonte de inspiração e ensinamentos nos combates que se realizam hoje, sob novas condições, na resistência à feroz ofensiva do sistema capitalista contra os trabalhadores e os povos e para abrir caminho à nova etapa da luta pelo socialismo”.

“Frente ampla: novos rumos para o Brasil. Democracia, soberania, desenvolvimento, progresso social” – este é o título geral do Projeto de Resolução Política do 14º Congresso do PcdoB. Nele, os comunistas fazem uma abordagem multilateral da situação política brasileira e assumem o compromisso de ampliar e aprofundar a luta política do povo brasileiro para transformar radicalmente a situação do país, hoje sob domínio de forças reacionárias. “Esta luta” – diz José Reinaldo – “é parte integrante da luta anti-imperialista e revolucionária dos povos de todo o mundo”.

Redação do Resistência

 

União e mobilização do povo venezuelano para derrotar a contrarrevolução

A República Bolivariana da Venezuela encontra-se mais uma vez sob intensa pressão e uma brutal ofensiva do imperialismo estadunidense e das forças oligárquicas locais. No país bolivariano, a direita fascista, contando com o respaldo dos meios de comunicação controlados pelo grande capital, pretende derrocar a revolução inaugurada pelo comandante Hugo Chávez, hoje sob a liderança do presidente Nicolás Maduro.

Por José Reinaldo Carvalho (*)

Desde os primeiros dias de abril, repetindo episódios anteriores, vândalos da direita, mancomunados com representantes da direita fascista na mídia, no parlamento e setores econômicos e sociais estão levando a cabo uma intentona golpista. O plano é derrocar o governo legítimo e provocar uma intervenção externa.

A direita venezuelana recorre a métodos violentos, depois de realizar a guerra econômica e a midiática, que prosseguem. Exigem a deposição ou a renúncia do presidente da República, contando com apoio externo. A reunião que a OEA realizou em Cancun na semana passada foi uma tentativa de preparar o ambiente para a intervenção externa, com a cumplicidade de governos reacionários da região, entre eles o governo golpista de Michel Temer. O intento fracassou, fruto da resistência da chancelaria venezuelana e da solidariedade de países amigos.

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Assembleia Nacional Constituinte

As forças progressistas brasileiras, convencidas de expressar os sentimentos profundos de nosso povo, respaldam os esforços que o presidente Nicolás Maduro está realizando para pacificar o país através do diálogo e da busca de saídas políticas que salvaguardem e levem ainda mais adiante as conquistas da Revolução bolivariana. É como vemos desde nosso país a convocação da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), caminho viável para conter a violência, isolar as forças recalcitrantes da direita, garantir a paz, recuperar a economia nacional e assegurar as missões sociais. As forças progressistas, e com maior razão os comunistas, os revolucionários, as correntes de esquerda, além dos movimentos sociais, devem ter presente que é seu dever precípuo apoiar plenamente a revolução bolivariana, o governo do presidente Maduro e respaldar a eleição, em 30 de julho próximo, da ANC e sua subsequente instalação e funcionamento.

A Assembleia Nacional Constituinte, visa a promover uma transformação do Estado, a ser normalizada pela nova Constituição. Com a mirada centrada nas prioridades nacionais, as forças dirigentes da revolução bolivariana fixaram nove linhas programáticas para o debate constituinte.

Pode-se mencionar: o restabelecimento da paz – direito e anseio da nação; o aperfeiçoamento do sistema econômico nacional rumo à edificação de um país poderoso nos aspectos econômico, social e cultural; a constitucionalização das Missões e Grandes Missões Socialistas; a ampliação das competências do Sistema de Justiça, para erradicar a impunidade dos delitos; a constitucionalização das novas formas da democracia participativa e protagonista; a defesa da soberania e a integridade da nação e a proteção contra o intervencionismo estrangeiro; a reivindicação do caráter pluricultural da pátria; a garantia do futuro para a juventude e, finalmente, a preservação da vida no planeta.

A ANC ampliará o escopo da Constituição fundadora de 1999, que será aperfeiçoada e adequada aos tempos atuais e às aspirações do povo venezuelano, com a perspectiva de continuar o desenvolvimento do país como uma pátria soberana, independente, justa e produtiva.

Protagonismo popular

O presidente Maduro convocou a Constituinte

Como ensinou o presidente Chávez, reside no poder originário do povo, no poder popular, no protagonismo das massas a possibilidade de levar adiante a revolução bolivariana.

Nosso apoio ao governo bolivariano da Venezuela e à ANC, que corresponde à nossa concepção internacionalista, relaciona-se também com a maneira como encaramos o desenvolvimento da América Latina e do Caribe, que em seu conjunto também estão no alvo de uma brutal ofensiva do imperialismo e das oligarquias locais. A revolução bolivariana foi e segue sendo uma base de apoio à unidade e à integração regional, ajudando a criar mecanismos como a Alba, a Unasul e a Celac.

Com visão estratégica, o presidente Nicolás Maduro dá continuidade ao plano socialista da nação venezuelana, concebido por Hugo Chávez, como expressão de um novo pensamento político denso e qualitativamente diferente do da oligarquia. A luta pelo socialismo é feita em meio a imensas dificuldades objetivas e subjetivas. A favor do povo está o fato de que o poder popular e a liderança do presidente Maduro como estadista e dirigente político, mostram-se decididos a levar adiante com consequência um programa patriótico e de esquerda, bolivariano, democrático-popular, anti-imperialista e socialista, capaz de construir uma grande e poderosa nação progressista.

Trata-se do programa ao qual Maduro jurou fidelidade, como herdeiro do comandante Hugo Chávez, em cujo governo começaram a redenção nacional da Venezuela e a libertação social de seu povo. Através do programa chavista, a direção da revolução busca plasmar e dar concretude aos objetivos históricos, nacionais e estratégicos da revolução na presente etapa. Independência política, econômica, financeira, científica e tecnológica; socialismo, para superar o iníquo sistema capitalista vigente; poder econômico, social e regional, em uma perspectiva de integração entre iguais, com altos índices de desenvolvimento educacional e cultural, são alguns dos objetivos permanentes da revolução que o atual governo busca com pertinácia. Isto é o que a contrarrevolução busca interromper.

O poder nacional venezuelano conta com o legado teórico e prático de Hugo Chávez, a formulação programática acima sintetizada, a mobilização do povo e a união cívico-militar. Em repetidas ocasiões, Chávez sentenciou que as forças entreguistas, reacionárias, opressoras e exploradoras do povo venezuelano “não voltarão jamais”. Nicolás Maduro e os demais integrantes do comando revolucionário bolivariano são portadores dessa convicção, o que explica a segurança, firmeza, serenidade, prudência e decisão com que têm atuado na presente crise.

“A Venezuela tem em mim um filho”

A Venezuela é um país com milhões de amigos em todo o mundo, começando pelos povos fraternos da região, entre os quais o nosso. O maior líder latino-americano de todos os tempos, o comandante da revolução cubana Fidel Castro, em uma sentida declaração emitida por motivo do falecimento de Chávez em cinco de março de 2013, afirmou que o líder bolivariano tinha sido o melhor amigo que o povo cubano teve ao longo da sua história.

Na mesma ocasião, Fidel recordava que o apóstolo das lutas pela independência de Cuba, José Martí, dirigiu-se nos seguintes termos ao país que lhe serviu de refúgio: “Diga-me, Venezuela, em que posso servir-lhe: ela tem em mim um filho”.

No momento em que a contrarrevolução volta a levantar a cabeça na Venezuela, somos todos venezuelanos e bolivarianos. Com o herói cubano, repetimos que o país de Bolívar e Chávez tem em nós seus filhos, empenhados na solidariedade e na luta em defesa da revolução.

No momento em que a luta política na Venezuela atravessa um momento crucial, é importante recordar as palavras de Chávez na última batalha eleitoral que realizou e venceu: “Os povos do mundo têm dentro de si o que alguém chamava pulsão heroica. Os povos vivem de sua pulsão heroica e o povo venezuelano possui uma pulsão heroica que vive e viverá para sempre na alma do povo, em suas entranhas.

São ideias e convicções que nos dão a certeza de que a contrarrevolução uma vez mais será derrotada.

(*) Jornalista, editor do Resistência (www.resistência.cc), membro do Comitê Central, Comissão Política Nacional e Secretariado, responsável por Política e Relações Internacionais.

União e mobilização do povo venezuelano para derrotar a contrarrevolução

A República Bolivariana da Venezuela encontra-se mais uma vez sob intensa pressão e uma brutal ofensiva do imperialismo estadunidense e das forças oligárquicas locais. No país bolivariano, a direita fascista, contando com o respaldo dos meios de comunicação controlados pelo grande capital, pretende derrocar a revolução inaugurada pelo comandante Hugo Chávez, hoje sob a liderança do presidente Nicolás Maduro.

Por José Reinaldo Carvalho (*)

Desde os primeiros dias de abril, repetindo episódios anteriores, vândalos da direita, mancomunados com representantes da direita fascista na mídia, no parlamento e setores econômicos e sociais estão levando a cabo uma intentona golpista. O plano é derrocar o governo legítimo e provocar uma intervenção externa.

A direita venezuelana recorre a métodos violentos, depois de realizar a guerra econômica e a midiática, que prosseguem. Exigem a deposição ou a renúncia do presidente da República, contando com apoio externo. A reunião que a OEA realizou em Cancun na semana passada foi uma tentativa de preparar o ambiente para a intervenção externa, com a cumplicidade de governos reacionários da região, entre eles o governo golpista de Michel Temer. O intento fracassou, fruto da resistência da chancelaria venezuelana e da solidariedade de países amigos.

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Assembleia Nacional Constituinte

As forças progressistas brasileiras, convencidas de expressar os sentimentos profundos de nosso povo, respaldam os esforços que o presidente Nicolás Maduro está realizando para pacificar o país através do diálogo e da busca de saídas políticas que salvaguardem e levem ainda mais adiante as conquistas da Revolução bolivariana. É como vemos desde nosso país a convocação da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), caminho viável para conter a violência, isolar as forças recalcitrantes da direita, garantir a paz, recuperar a economia nacional e assegurar as missões sociais. As forças progressistas, e com maior razão os comunistas, os revolucionários, as correntes de esquerda, além dos movimentos sociais, devem ter presente que é seu dever precípuo apoiar plenamente a revolução bolivariana, o governo do presidente Maduro e respaldar a eleição, em 30 de julho próximo, da ANC e sua subsequente instalação e funcionamento.

A Assembleia Nacional Constituinte, visa a promover uma transformação do Estado, a ser normalizada pela nova Constituição. Com a mirada centrada nas prioridades nacionais, as forças dirigentes da revolução bolivariana fixaram nove linhas programáticas para o debate constituinte.

Pode-se mencionar: o restabelecimento da paz – direito e anseio da nação; o aperfeiçoamento do sistema econômico nacional rumo à edificação de um país poderoso nos aspectos econômico, social e cultural; a constitucionalização das Missões e Grandes Missões Socialistas; a ampliação das competências do Sistema de Justiça, para erradicar a impunidade dos delitos; a constitucionalização das novas formas da democracia participativa e protagonista; a defesa da soberania e a integridade da nação e a proteção contra o intervencionismo estrangeiro; a reivindicação do caráter pluricultural da pátria; a garantia do futuro para a juventude e, finalmente, a preservação da vida no planeta.

A ANC ampliará o escopo da Constituição fundadora de 1999, que será aperfeiçoada e adequada aos tempos atuais e às aspirações do povo venezuelano, com a perspectiva de continuar o desenvolvimento do país como uma pátria soberana, independente, justa e produtiva.

Protagonismo popular

O presidente Maduro convocou a Constituinte

Como ensinou o presidente Chávez, reside no poder originário do povo, no poder popular, no protagonismo das massas a possibilidade de levar adiante a revolução bolivariana.

Nosso apoio ao governo bolivariano da Venezuela e à ANC, que corresponde à nossa concepção internacionalista, relaciona-se também com a maneira como encaramos o desenvolvimento da América Latina e do Caribe, que em seu conjunto também estão no alvo de uma brutal ofensiva do imperialismo e das oligarquias locais. A revolução bolivariana foi e segue sendo uma base de apoio à unidade e à integração regional, ajudando a criar mecanismos como a Alba, a Unasul e a Celac.

Com visão estratégica, o presidente Nicolás Maduro dá continuidade ao plano socialista da nação venezuelana, concebido por Hugo Chávez, como expressão de um novo pensamento político denso e qualitativamente diferente do da oligarquia. A luta pelo socialismo é feita em meio a imensas dificuldades objetivas e subjetivas. A favor do povo está o fato de que o poder popular e a liderança do presidente Maduro como estadista e dirigente político, mostram-se decididos a levar adiante com consequência um programa patriótico e de esquerda, bolivariano, democrático-popular, anti-imperialista e socialista, capaz de construir uma grande e poderosa nação progressista.

Trata-se do programa ao qual Maduro jurou fidelidade, como herdeiro do comandante Hugo Chávez, em cujo governo começaram a redenção nacional da Venezuela e a libertação social de seu povo. Através do programa chavista, a direção da revolução busca plasmar e dar concretude aos objetivos históricos, nacionais e estratégicos da revolução na presente etapa. Independência política, econômica, financeira, científica e tecnológica; socialismo, para superar o iníquo sistema capitalista vigente; poder econômico, social e regional, em uma perspectiva de integração entre iguais, com altos índices de desenvolvimento educacional e cultural, são alguns dos objetivos permanentes da revolução que o atual governo busca com pertinácia. Isto é o que a contrarrevolução busca interromper.

O poder nacional venezuelano conta com o legado teórico e prático de Hugo Chávez, a formulação programática acima sintetizada, a mobilização do povo e a união cívico-militar. Em repetidas ocasiões, Chávez sentenciou que as forças entreguistas, reacionárias, opressoras e exploradoras do povo venezuelano “não voltarão jamais”. Nicolás Maduro e os demais integrantes do comando revolucionário bolivariano são portadores dessa convicção, o que explica a segurança, firmeza, serenidade, prudência e decisão com que têm atuado na presente crise.

“A Venezuela tem em mim um filho”

A Venezuela é um país com milhões de amigos em todo o mundo, começando pelos povos fraternos da região, entre os quais o nosso. O maior líder latino-americano de todos os tempos, o comandante da revolução cubana Fidel Castro, em uma sentida declaração emitida por motivo do falecimento de Chávez em cinco de março de 2013, afirmou que o líder bolivariano tinha sido o melhor amigo que o povo cubano teve ao longo da sua história.

Na mesma ocasião, Fidel recordava que o apóstolo das lutas pela independência de Cuba, José Martí, dirigiu-se nos seguintes termos ao país que lhe serviu de refúgio: “Diga-me, Venezuela, em que posso servir-lhe: ela tem em mim um filho”.

No momento em que a contrarrevolução volta a levantar a cabeça na Venezuela, somos todos venezuelanos e bolivarianos. Com o herói cubano, repetimos que o país de Bolívar e Chávez tem em nós seus filhos, empenhados na solidariedade e na luta em defesa da revolução.

No momento em que a luta política na Venezuela atravessa um momento crucial, é importante recordar as palavras de Chávez na última batalha eleitoral que realizou e venceu: “Os povos do mundo têm dentro de si o que alguém chamava pulsão heroica. Os povos vivem de sua pulsão heroica e o povo venezuelano possui uma pulsão heroica que vive e viverá para sempre na alma do povo, em suas entranhas.

São ideias e convicções que nos dão a certeza de que a contrarrevolução uma vez mais será derrotada.

(*) Jornalista, editor do Resistência (www.resistência.cc), membro do Comitê Central, Comissão Política Nacional e Secretariado, responsável por Política e Relações Internacionais.

José Reinaldo: Diretas Já, comando progressista e alianças amplas

A verdade está nos fatos. E estes estão indicando o eixo em torno do qual gira a ação política protagonizada pelas forças da esquerda consequente e do movimento popular.

Por José Reinaldo Carvalho (*)

 Em 24 de maio, uma centena de milhar de pessoas foi em caravana a Brasília com as bandeiras “Fora, Temer!” e “Diretas, Já!” A manifestação constituiu um contundente pronunciamento contra as reformas da Previdência e Trabalhista propostas pelo governo golpista e adotadas como prioridade na agenda do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do partido direitista DEM.

Dias 28 de maio e 4 de junho, algumas dezenas de milhares de pessoas, embora que em clima de “domingo no parque” e “virada cultural”, na metáfora do companheiro Artur Araújo, reuniram-se em Copacabana e no Largo da Batata (SP), para, entre números musicais, performances e falas, protestar contra o governo usurpador, exigir sua queda e a convocação de eleições presidenciais diretas já.

É um movimento que não se vai deter. De nada adianta compará-lo com o de 1984 com fins de desqualificação. Nem demandar “fato novo” por obra e graça da intervenção de governadores que não têm força política e entre os quais há apoiadores das eleições indiretas e defensores de um acordo nacional entre as forças progresistas e a direita conservadora e neoliberal. O movimento pelas diretas de 2017 seguirá seu caminho e adotará suas formas. Os resultados não são passíveis de previsão, mas o seu potencial de crescimento não pode ser subestimado.

No último fim de semana (3 de junho), reunido em Congresso, o Partido dos Trabalhadores tomou uma histórica decisão. Manifestou “posição inegociável pelas Diretas Já e contra o golpe dentro do golpe”. E afirmou, alto e bom som, que enfrentará “quaisquer iniciativas das classes dominantes de impor eleições indiretas”. Aprovou por unanimidade a decisão de rejeitar “terminantemente as alternativas dos golpistas”. E arremata: “Para pôr fim a essa crescente escalada de retrocessos é preciso antecipar as eleições, inclusive do Congresso Nacional, para que a vontade livre e soberana do povo se manifeste nas urnas. O PT e seus parlamentares não irão a um eventual Colégio Eleitoral”.

Pouco mais de dez dias antes, a 22 de maio, a Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), reunida em São Paulo, aprovava, também por unanimidade: “Ante a efetiva possibilidade da saída do usurpador da cadeira presidencial, está em curso a disputa política entre duas alternativas: as eleições indiretas e as eleições diretas”. E afirmava categoricamente, com a ênfase própria dos comunistas: “O PCdoB, desde a consumação do golpe, está empenhado pela realização de eleições diretas para presidente da República. Convicto de que a soberania do voto popular é O caminho para a restauração da democracia e, com base nela, encaminhar o país à normalidade institucional”.

É significativo que as duas principais forças da esquerda consequente do país estejam unidas em torno da bandeira das Diretas Já. A posição é coincidente com a dos movimentos agrupados na Frente Brasil Popular que, em plenária nacional e em ato político em 28 de maio, adotou as mesmas posições e ainda lançou um plano de emergência para o Brasil pós-golpe e pós-diretas.

Não há, portanto, qualquer articulação em curso, autorizada pelas direções do PT e do PCdoB, nem pelos movimentos que integram a Frente Brasil Popular, em favor de eleições indiretas, nem muito menos de formação de chapa tendo por centro o presidente golpista da Câmara Rodrigo Maia.

Durante a semana passada, foram insistentes as notícias veiculadas nos grandes meios de comunicação de que o presidente Lula seria levado por setores da bancada petista a negociar com Maia um eventual apoio à sua condução à presidência da República por via indireta. Não foi necessário um desmentido, pois Lula, questionado, apenas disse que sequer foi convidado a tal conversa. Foi a Brasília para participar do congresso do PT e, num intervalo, teve uma audiência com a CNBB. Igualmente, foram inúmeras as notícias em veículos de comunicação da chamada grande mídia e nas redes sociais de que um deputado e um ex-ministro do PCdoB estariam mantendo entendimentos para a composição de uma chapa DEM-PCdoB, com Maia na presidência e um quadro do PCdoB na vice-presidência. Não conheço um desmentido dos supostos protagonistas das conversações, mas posso assegurar, como membro da direção do PCdoB que a legenda da foice e do martelo não está embarcando nessa canoa furada. As bandeiras imediatas dos comunistas diante da presente crise são a derrubada do governo Temer, a rejeição às reformas desse governo e a convocação de eleições diretas, já. O Partido tem reiterado que não se aliará a candidatos que defendem agendas antipopulares e antinacionais. Mesmo que tenha sido, como foi, um erro estratégico e tático apoiar Maia em duas eleições à presidência da Câmara, não se justifica invocar o episódio para atestar que é possível que isto se repita em eventuais eleições indiretas. E, mesmo para quem o voto em Maia se justificou nas duas últimas eleições da Mesa da Câmara, as supostas razões para esse apoio estão superadas pela prática concreta de Maia como presidente da Câmara. Página virada.

Igualmente, são desarrazoadas certas analogias históricas, comuns e recorrentes em tempos de rebaixado debate político e ideológico. É preciso refrescar a memória para não incorrer em falsificações. Teotônio Vilela, o Menestrel das Alagoas, rompeu com a ditadura e aderiu à luta democrática. Desempenhou papel fundamental na luta pela anistia aos presos políticos. Tancredo Neves era um político democrata-liberal de centro, moderado e conciliador, mas nunca pertenceu à ditadura. Foi eleito no Colégio Eleitoral, em sufrágio indireto, no bojo de um multitudinário movimento de massas, com o compromisso e a finalidade de pôr fim à ditadura. Já Rodrigo Maia é alto prócer de um partido de direita, reacionário empedernido, nunca pertenceu às forças democráticas, é golpista, antipetista e anticomunista, apoia o governo golpista do Temer, é o esteio principal no Parlamento para aprovar as reformas antipopulares e antinacionais do governo ilegítimo e não conta a seu favor com nenhum movimento de massas pedindo a sua eleição. Mais: ele não rompeu e já disse que não romperá com o regime golpista.

Ademais, não há partido progressista, de esquerda ou comunista que esteja propondo a sua eleição.

Não estão à vista nem em cogitação pelas forças de esquerda “soluções” para a crise via eleições indiretas, nem acordos para eleger Rodrigo Maia presidente da República. Enquanto não houver eleições diretas e o protagonismo das ações não voltar para as forças progressistas, em aliança com amplos setores políticos e sociais, não há saída possível para a crise.

Atualização: Recebo com grande alegria a notícia publicada nesta segunda-feira (5) à noite, na página de internet Campo Grande News, de que o camarada Aldo Rebelo nega que seja candidato a vice-presidente da República em aliança com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Aldo afirma que as notícias divulgadas nesse sentido não passam de especulação.

“O que houve é que quando fui candidato à presidência da Câmara dos Deputados, tive o apoio do DEM e do PSB, o que gerou laços entre o Rodrigo Maia e eu. Mas não há qualquer conversa nesse sentido, até porque o meu partido reivindica eleições diretas, caso isso aconteça”, disse o camarada.

(*) Jornalista, editor do Resistência, secretário de Política e Relações Internacionais do PCdoB

José Reinaldo: Dissipar a confusão, lutar já e sem parar por eleições diretas



Uma das frases mais carregadas de significado da literatura brasileira e muitas vezes citada por cronistas foi lavrada por Machado de Assis na sua genial obra Dom Casmurro. “A confusão era geral”, dizia, descrevendo uma das antológicas cenas do conflito emocional de Capitu.
Por José Reinaldo Carvalho (*)

Ajustando o tempo do verbo, poderíamos dizer que a confusão é geral, ao vivenciar o conflito político-ideológico – que para a militância abnegada e combativa não deixa de ser emocional também – em que estão engolfados setores da esquerda na busca de soluções para a crise atual.

Os partidos consequentes da esquerda, os setores progressistas e os movimentos populares que com estes marcham nas jornadas de luta contemporâneas, têm uma posição clara diante da crise em curso: imediata saída do usurpador Michel Temer do governo, rejeição às reformas regressivas da Previdência e das leis trabalhistas e realização de eleições diretas, já.

Esta é a única plataforma imediata que assegura a convergência e a unidade de ação de amplas forças políticas e do movimento de massas para encontrar uma saída democrática à profunda crise política, econômica, social e ética do Brasil, cuja origem está no caráter reacionário das classes dominantes, indissociável do governo golpista e usurpador de Michel Temer.

Não há desfecho previsível para a crise, mas um dos possíveis caminhos ainda é a continuidade do governo Temer. Ruinosa para o país, representaria a bancarrota nacional, a degradação ainda maior das condições de vida do povo, a liquidação das incipientes conquistas sociais e a mutilação da democracia. O golpe de Estado que afastou as forças progressistas do governo no ano passado abriu caminho para a instauração de um regime ultra-reacionário, pelo que há de se responsabilizar para sempre os partidos que o tramaram e lhe deram sustentação. O presidente usurpador, contando ainda com o apoio do presidente da Câmara e núcleos de direção de partidos como o PSDB, PMDB, DEM, em setores da mídia e do Judiciário, faz todo o tipo de manobras para se manter à frente do governo até o final do seu ilegítimo mandato.

As classes dominantes e seus agentes políticos, midiáticos e em setores do Judiciário apostam numa “saída” política sem Michel Temer, continuando, entretanto, as reformas antinacionais e antipopulares por este iniciadas e a política macroeconômica, no figurino traçado pela grande burguesia monopolista-financeira e os círculos financeiros internacionais. Esta saída não está ainda plenamente configurada porque não há consenso entre os diferentes setores das classes dominantes sobre o meio político e jurídico com que afastar Temer, nem sobre o nome para substituí-lo. Há também séria inquietação entre as forças de direita e centro-direita quanto às reações que, neste caso, sobreviriam do movimento popular organizado, que clama por eleições direitas já, movimento que pode ganhar força e amplitude. Sabem que o povo não teria paciência para suportar a substituição de um Temer por outro, apenas maquiado, imposta por um parlamento dominado por uma maioria golpista e desligada dos interesses nacionais e populares.

Nesse quadro de “soluções” em suspenso é que se tenta envolver as forças progressistas e de esquerda em manobras táticas que podem representar uma traição ou um suicídio. Buscar uma solução de consenso; pactuar a formação de um governo transitório que garanta a estabilidade política e a realização das eleições gerais de 2018; salvar a “política” por meio de um entendimento entre os ex-presidentes Lula e FHC, exercitar um novo tipo de coalizão, à moda de um parlamentarismo artificial, tendo por eixo o PSDB e o PT – são fórmulas que vieram a lume nos últimos dias, ao lado de estapafúrdias especulações sobre candidaturas a presidente e vice-presidente em eleições indiretas.

Para além de ser um crasso erro estratégico e tático, tais arrazoados contêm fantasiosas ilusões, sonhos e delírios como os que provocaram as lágrimas da doce e bela Capitu.

A esquerda tem experiência histórica e não deve ter complexos nem receios de examinar alternativas quando o país se depara com situações de impasse. É seu dever buscar saídas, com a condição de que sejam progressivas, virtuosas e levem a uma verdadeira acumulação de forças que a tornem suficientemente forte para enfrentar os decisivos embates vindouros. Não pode ser ingênua, nem se prestar a auxiliar o inimigo a encontrar saídas que inevitavelmente manterão intacto o iníquo sistema político antidemocrático, antinacional e antipopular.

Espantosamente, na mesma semana em que uma centena de milhar de pessoas foi a Brasília exigir a saída de Temer e a convocação de eleições diretas já, e em que os dois principais partidos da esquerda brasileira (PT e PCdoB) aprovaram em suas instâncias diretivas mais responsáveis resoluções políticas com o mesmo sentido, observa-se uma afanosa atividade paralela e diversionista de construção da alternativa das eleições indiretas, mediante as vagas promessas e as ilusões acima mencionadas.

O leitor de Machado nunca soube nem saberá se Capitu “traiu” Bentinho. Nós, outros, que vivemos hoje diferente transe, podemos, contudo, prever o destino histórico que nos espera se a esquerda embacar na nau dos insensatos das eleições indiretas. Quem, por convicções políticas e ideológicas, ostenta no peito a foice e o martelo ou a estrela vermelha, tem o dever histórico de mover um combate sem tréguas a essa manobra.

PS: Nesta data (27 de maio), há 15 anos, faleceu o camarada e amigo João Amazonas. Dentre milhares de episódios históricos de sua ação política que retenho na memória e nos cadernos de notas, relembro que poucas semanas antes, uma das suas últimas ações como presidente de honra do PCdoB – transmitira a presidência ao camarada Renato Rabelo, seis meses antes, em dezembro de 2001 – foi receber na sede nacional do Partido, em São Paulo, os companheiros Lula e Zé Dirceu, encontro no qual os comunistas asseguraram (naquela altura foi o primeiro partido a fazê-lo), apoio à candidatura de Lula à Presidência da República. O João não chegou a viver a vitória de Lula, mas a semeadura que fez da “unidade como bandeira da esperança” deixou valiosas lições.

(*) Jornalista, editor do Resistência, secretário de Política e Relações Internacionais do PCdoB

José Reinaldo: Ensinamentos da vitória dos povos sobre o fascismo

No dia 2 de maio de 1945 foi içada a bandeira comunista por um soldado soviético no Reichtag, momento triunfante em que a máquina de guerra hitlerista capitulava perante o invicto Exército Soviético, em Berlim, depois de ter sido destroçada em sangrentas batalhas.
Por José Reinaldo Carvalho (*)

Uma semana depois, a 9 de maio, tinha desfecho na Europa a Segunda Guerra Mundial, com a derrota final do nazi-fascismo. O conflito como um todo só terminaria quatro meses depois, com a capitulação japonesa, depois da ofensiva soviética na frente asiática e o desnecessário e criminoso bombardeio nuclear perpetrado pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki.

Para que jamais se repitam acontecimentos tão nefastos como o conjunto da obra do nazi-fascismo, e se eternize na memória dos povos a façanha libertadora realizada pela União Soviética e as forças democráticas, é que o 9 de maio terá de ser sempre comemorado. A data assinala a vitória das forças da paz, da democracia, do internacionalismo e da unidade antifascista.

Os povos da União Soviética pagaram o mais terrível preço em vidas humanas e prejuízos materiais, com a morte de 27 milhões dos seus cidadãos, incluindo 7,5 milhões de soldados. O país passou por inusitada devastação: 1.710 cidades e 70 mil povoados foram completamente destruídos; milhares de fábricas, empresas e cooperativas agrícolas danificadas, seis milhões de casas demolidas.

As vitórias do Exército Vermelho nas históricas batalhas de Moscou (outubro de 1941 a janeiro de 1942), Stalingrado (agosto de 1942 a fevereiro de 1943), Kursk (entre a primavera e o verão de 1943) e Berlim, na primavera de 1945 permanecerão indelevelmente marcadas na memória da humanidade, como o tributo dos povos soviéticos para a causa da libertação.

A vitória sobre o nazifascismo foi fruto também da união dos povos e das forças democráticas no âmbito de cada país e da ação política e militar de uma ampla aliança internacional, de que fizeram parte a União Soviética, o Reino Unido e os Estados Unidos.

Os povos dos países ocupados pelo fascismo protagonizaram a luta guerrilheira e uma multifacetada resistência. No combate ao nazifascismo foram constituídas frentes democráticas e populares de libertação nacional, com a participação de amplas camadas da população, organizações sociais e partidos políticos. Os comunistas desempenharam seu protagonismo na constituição dessas frentes.

O palco principal da resistência foi a Europa. Mas no restante do mundo, os povos também se levantaram contra a ofensiva alemã, italiana e japonesa. No Brasil, as forças democráticas fizeram movimentos pelo envio de tropas aos campos de batalha na Europa. Até hoje, os Pracinhas são com justiça cultuados pela memória nacional.

Tragédias como a Segunda Guerra Mundial, tal como a primeira, não ocorrem por acaso. Resultam de profundas causas econômicas e políticas relacionadas com a natureza do sistema capitalista.

A Segunda Guerra Mundial eclodiu como um confronto entre as grandes potências capitalistas, tendo sido provocada pelos países mais agressivos – a Alemanha nazista, a Itália fascista e o Japão. A intenção dessas potências era promover uma nova divisão do mundo tal como se configurara após a Primeira Guerra (1914 – 1918).

Tendo sua origem nas contradições entre potências capitalistas, a Segunda Guerra Mundial foi gradualmente mudando de caráter. Os povos dos países ocupados, principalmente a partir da agressão nazista à União Soviética, ergueram-se na resistência popular-nacional antifascista, passando a realizar uma justa luta democrática e de libertação nacional. Os próprios Estados capitalistas, a partir do desencadeamento da guerra, viram-se confrontados com o perigo nacional, o que criou condições para a formação de um amplo e poderoso movimento patriótico e antifascista.

Mas a conjuntura que precedeu a eclosão da guerra e mesmo o seu período inicial caracterizava-se pela tentativa da Grã Bretanha, França e Estados Unidos de provocar a destruição da União Soviética.

Revisitar o quadro político da época proporciona lições sobre a conduta das forças políticas à frente dos Estados nacionais e sobre as contradições no campo das próprias potências imperialistas. A luta contra o fascismo não foi sempre compreendida por determinados governos como algo necessário para garantir a democracia e o progresso social. Entre as facções “democráticas” da burguesia, a cartada fascista foi num dado momento uma opção na luta estratégica de fundo que moviam contra o socialismo.

Pacto anti-Comintern

Pouco recordado, um dos episódios mais pedagógicos a esse respeito foi o chamado “pacto anti-Comintern”. Em outubro de 1935, as tropas italianas invadiram a Etiópia. Nesse mesmo ano, a Alemanha e a Itália empreenderam ações militares conjuntas para esmagar a luta republicana e democrática, com caráter revolucionário, do povo espanhol. Em outubro de 1936, essas duas potências fascistas mantinham entendimentos para dividir as zonas de influência na Europa e aplicar uma política internacional comum.

Em 1936, representantes do Japão e da Alemanha assinaram em Berlim o “pacto anti-Comintern”, ao qual se uniu a Itália. Tratava-se de um esforço para convencer a opinião pública de que o seu objetivo era a luta contra o comunismo, especialmente contra o Comintern (o Comitê da Internacional Comunista). Na realidade, era um acordo político e militar que se baseava nos seus interesses para a redivisão do mundo por meio da guerra.

Mas, ao desenvolver uma política de suposta neutralidade, na prática Estados Unidos, Inglaterra e França calculavam superar as contradições com os países fascistas às custas da União Soviética. Essas três potências calculavam que, na luta contra a agressão fascista, os seus adversários se debilitariam, o que lhes permitiria manter suas zonas de influência e de ocupação colonial e liquidar a União Soviética como país socialista.

A política de “não intervenção” visava a isolar a União Soviética e criar as condições para uma grande cruzada dos países imperialistas contra esta, utilizando como força de ataque o fascismo alemão e o militarismo japonês. Diante de tal situação a União Soviética seguiu a política da segurança coletiva, segundo a qual os países interessados em sua segurança nacional deveriam manter laços entre si com tratados de ajuda mútua a fim de se defenderem de agressões.

A direção soviética advertiu que a política de não intervenção significava um encorajamento à agressão, permitia deixar o terreno livre à guerra e transformá-la em guerra mundial. Ficava claro nessa política de não intervenção o obscuro desejo de que, na frente oriental, o Japão entrasse em guerra contra a China e ainda mais contra a União Soviética. Nunca fez parte dos planos das potências imperialistas realizar qualquer ação que impedisse que a Alemanha golpeasse a União Soviética. O que pretendiam era fazer com que a Alemanha e a União Soviética se debilitassem numa guerra entre si para depois sair em cena com suas forças ilesas, e, no “interesse da paz”, impor as suas condições aos países beligerantes debilitados.

O complô de Munique

É nesse quadro que tem lugar o “complô de Munique”. Em março de 1938, as tropas hitleristas entraram na Áustria, sem nenhuma resistência. Após alguns dias, é proclamada a união desse país com a Alemanha. Apesar de ter sido uma agressão aberta, os governos ocidentais que seguiam a política de cedências, apressaram-se a reconhecer oficialmente esta “união”. Mais uma aprovação e encorajamento aos nazistas alemães, o que se confirma com as decisões da conferência de chefes de governos da Alemanha, Inglaterra, França e Itália, realizada em Munique, Alemanha, em setembro de 1938.

Os acordos assinados ali previam que a Tchecoslováquia entregasse à Alemanha no prazo de dez dias a região dos Sudetos e outros territórios fronteiriços. Este acordo na verdade equivalia à completa liquidação do Estado Tchecoslovaco.

A política de cedências, que representava também um perigo para os países que a praticavam, não era isenta de contradições. Havia setores que enxergavam que tal política inflaria o bloco dos países fascistas, pois era óbvio que estes apresentariam novas exigências de anexações, o que entraria cada vez mais em contradição com os interesses da própria Inglaterra, da França e dos Estados Unidos.

Antes de se tornar primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, partidário da política de enfrentamento militar a Hitler, fez um discurso na Câmara dos Comuns (parlamento britânico) criticando a posição adotada na Conferência de Munique: “Escolhemos uma derrota, sem guerra, cujas consequências nos acompanharão longe em nosso caminho”. “Vocês escolheram entre a guerra e a desonra; escolheram a desonra e terão a guerra”. Mais tarde, em suas memórias, o líder britânico, que de pró-soviético não tinha nada, escreveu: “A oferta dos soviéticos foi de fato ignorada. Eles não foram consultados em face da ameaça hitlerista e foram tratados com indiferença, para não dizer com desdém, o que marcou o espírito de Stálin. Os acontecimentos se desenvolveram como se a Rússia Soviética não existisse. Pagamos terrivelmente por isso”.

Pacto com a Alemanha

A primeira reação política e diplomática da União Soviética foram as conversações de Moscou, em março de 1939, com França e Inglaterra, visando a um tratado de ajuda mútua, para a eventualidade de uma agressão proveniente da Alemanha. Enquanto isso, os países imperialistas mantinham entendimentos secretos com Hitler a fim de dividir zonas de influência no mundo. Foi o que levou a União Soviética ao controvertido, mas demonstrado pelos fatos como salvador, tratado de não agressão com a Alemanha, em 1939. Com o tratado, a União Soviética temporariamente neutralizou a agressão nazista e paralisou os esforços dos imperialistas ingleses e franceses para isolá-la.

A recordação desses fatos e o resgate das decisões táticas e estratégicas da época servem para extrair lições, o que pode ajudar as forças anti-imperialistas que se encontram no combate contemporaneamente a melhor se situar nos quadros complexos com que se defrontam.

Frutos da vitória

Isto também é válido quando se aquilata o valor das conquistas resultantes do desfecho do conflito.

A vitória dos povos na Segunda Guerra Mundial provocou importantes modificações geopolíticas. O episódio marcou, de imediato, a derrocada dos planos imperialistas. Revoluções democráticas, populares e de libertação nacional foram vitoriosas. O caráter libertador da luta antifascista dos povos, o papel decisivo da União Soviética e das massas trabalhadoras e populares na vitória e a derrocada do fascismo deram impulso aos movimentos democráticos e socialistas em todo o mundo. Debilitou-se o sistema colonialista. Surgiu temporariamente uma nova correlação de forças favorável ao avanço das lutas pela paz e o progresso social. O campo democrático e anti-imperialista saiu fortalecido.

Neste quadro, os Estados Unidos, potência capitalista que também se consolidara com a vitória na guerra e se tornara a principal líder do sistema capitalista, inicia uma contraofensiva para assegurar posições hegemônicas e ordenar o sistema internacional segundo seus próprios interesses. O lançamento das bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki pela aviação estadunidense foi o ato inaugural da nova ordem que os Estados Unidos pretendiam impor.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial até os nossos dias, os Estados Unidos seguiram uma política e praticaram ações contrárias aos interesses dos povos, da democracia, da independência nacional e da paz mundial.

A ordem internacional que sucedeu à Segunda Guerra Mundial está superada. Suas instituições caducaram, a União Soviética desapareceu e os EUA vivem as contradições de sua inarredável crise e do seu prolongado declínio histórico, malgrado ainda mantenha a condição de principal superpotência militar.

Ameaça de novos conflitos

Ao final da segunda década do século 21, o mundo está de novo vivendo um grave momento, com renovadas tensões, instabilidade e ameaças à paz. Aprofunda-se a multidimensional crise do capitalismo, base objetiva a partir da qual se desenvolve uma brutal ofensiva imperialista contra os povos. Emergem novas configurações de forças na cena geopolítica, pondo em xeque a ordem mundial hegemonizada pelos Estados Unidos.

Está em curso uma conturbada transição na ordem mundial, marcada pelo declínio relativo da superpotência estadunidense e pela emergência de novos polos de poder econômico, político, diplomático e militar. A China socialista desponta como a principal economia do mundo, um forte poder nacional e um fator preponderante nas relações internacionais. A Rússia recupera sua condição de potência e participa intensamente das disputas geopolíticas. Estas tendências objetivas se chocam com os interesses dos Estados Unidos e seus aliados. A União Europeia, sob hegemonia alemã, acentua sua natureza imperialista, oscila entre aliança e rivalidade com os Estados Unidos e atua como linha de frente no combate à Rússia, mas também se enfraquece com a saída do Reino Unido. O Japão, há décadas em crise, ao tempo em que se mantém na órbita estadunidense, envereda por um caminho militarista próprio e busca aumentar sua projeção e presença na Ásia, em oposição à China.

Esta rearrumação de forças no campo geopolítico exerce forte impacto sobre as lutas dos povos. Embora as contradições entre potências imperialistas não sejam as principais no feixe dos antagonismos do mundo contemporâneo, elas podem causar fissuras que dão maior margem de manobra à resistência nacional e popular e precisam ser tomadas em consideração na luta pela paz e por uma nova ordem em que prevaleçam a democracia, o direito internacional, a soberania e a autodeterminação dos povos. É ilusão, porém, imaginar que uma nova ordem progressista possa derivar de arranjos entre potências imperialistas e que a emergência de um mundo multipolar será a resultante inexorável do desenvolvimento pacífico.

Transcorridos 72 anos desde o glorioso triunfo das forças democráticas e do progresso social sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, é imperioso renovar os compromissos pela paz, o que implica organizar as forças capazes de levar adiante, nas novas condições, a luta pela emancipação nacional e social.

(*) Jornalista, editor do Resistência, secretário de Política e Relações Internacionais do PCdoB

A Conferência de 1962 do PCdoB foi a vitória da luta contra o oportunismo de direita

Transcorreu no último dia 18 de fevereiro o 55º aniversário da Conferência Nacional Extraordinária do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que decidiu reorganizar o antigo Partido fundado em 1922, após longa e aturada luta interna. A conferência de 1962 na prática refundou o Partido Comunista do Brasil sobre bases revolucionárias e deu início a um esforço, que se estende até os nossos dias, de formação e consolidação de um núcleo marxista-leninista no Brasil.

Por José Reinaldo Carvalho*, no Resistência

O documento aprovado pelo Comitê Central, em 2012, e no ano seguinte pelo 13º Congresso, alusivo ao 90º aniversário da fundação do Partido, situa assim o episódio: “No dia 18 de fevereiro de 1962 realizou-se a Conferência extraordinária que reorganizou o Partido Comunista do Brasil. O evento, aparentemente modesto, revestiu-se de grande importância histórica para o povo e os trabalhadores brasileiros. Tratava-se, naquela ocasião, de reorganizar o Partido que estava sendo ameaçado em sua existência enquanto organização proletária e revolucionária”.

Que significou a refundação do PCdoB em 1962? Essencialmente, foi um episódio decisivo da luta contra o oportunismo de direita, que se expressava no documento conhecido como Declaração de Março de 1958. De acordo com Maurício Grabois, “A Declaração de Março de 1958 não exprime uma política justa, não corresponde aos interesses de classe do proletariado. No essencial, tal documento defende uma linha oportunista de direita”.  Grifo meu. (“Duas concepções, duas orientações políticas”, publicado na Tribuna de Debates do 5º Congresso, em 1960).

A mesma avaliação é feita pelo Comitê Central (2012) e pelo 13º Congresso (2013): “A Declaração de Março de 1958 consolidou a guinada reformista da maioria da direção do Partido, pois afirmava que o processo de democratização era “uma tendência permanente” e poderia “superar quaisquer retrocessos e seguir incoercivelmente adiante”.

 “A Declaração considerava a burguesia como ‘uma força revolucionária’ e julgava existir a ‘possibilidade real de conduzir, por formas e meios pacíficos, a revolução anti-imperialista e antifeudal’ no Brasil.”

“Começavam, assim, a ser definidas mais nitidamente duas tendências opostas no interior do Partido: uma reformista e outra revolucionária. Elas iriam se enfrentar duramente nos debates do 5º Congresso do Partido, realizado em 1960. Neste conclave, a corrente revisionista-reformista conseguiu aprovar suas teses referentes à linha política e afastou do Comitê Central, entre outros, João Amazonas, Maurício Grabois e Diógenes Arruda”.

Faltando cinco anos para o centenário da fundação do Partido, a celebração do 55º aniversário da conferência que o reorganizou sobre bases marxistas-leninistas chama a atenção para os novos desafios da atualidade. Se a situação que deu origem à divisão dos comunistas e à sua reorganização no início dos anos 1960 está historicamente superada, não são menos perigosas as ameaças que pesam sobre a esquerda revolucionária, em particular os comunistas, no ambiente criado pelo regime do golpe de Estado de 2016 e da ofensiva brutal que este desencadeou contra a democracia, os direitos do povo e a soberania nacional.

Tem sido complexo e tortuoso, muitas vezes doloroso, a luta para fazer vingar no Brasil uma corrente política e ideológica comunista organizada no âmbito de um partido. O Partido Comunista do Brasil atravessou muitas etapas, deitou raízes profundas no solo nacional, desenvolveu-se inserido nos grandes acontecimentos do país, nos quais influiu, projetou o seu prestígio nacional e internacional e se tornou corresponsável por muitas conquistas democráticas e nacionais do povo brasileiro.

Enfrentou também muitas vicissitudes, de caráter objetivo e subjetivo, de ordem externa e interna, em que sobressaíram as investidas repressivas dos inimigos de classe, deficiências de formação teórica e ideológica, leituras incorretas do quadro político, divisões internas e intentos liquidacionistas.

Ainda persiste nos dias atuais, e com maior razão porque as questões da ordem política prevalecente são mais exigentes, o repto de firmar no cenário político um partido comunista revolucionário, de classe e convicto da sua missão histórica de derrotar o imperialismo e as classes dominantes retrógradas para abrir caminho ao socialismo no país.

Para uma numerosa militância comunista jovem, assim como para os quadros maduros e os dirigentes, celebrar o aniversário da reorganização  do PCdoB sobre bases marxistas-leninistas deve corresponder a um investimento de energias intelectuais, morais e materiais para que este partido se desenvolva e se consolide como uma força de combate pelo socialismo no Brasil, o que significa dizer que terá que ser uma partido irreconciliável com as classes dominantes retrógradas, opressoras e entreguistas, antagônico ao imperialismo, um partido de classe, portador das aspirações históricas dos trabalhadores e de todo o povo brasileiro, capaz de sintetizar em plataformas políticas amplas e unitárias as questões emergentes do país, como a nacional, a democrática e a popular, sempre em ligação com a perspectiva socialista. Um partido de todas as lutas do povo brasileiro e nítida identidade comunista.

A linha política

Na história do Partido, um divisor de águas importante sempre foi a estratégia e a tática, ou em termos mais simples, a linha política, matéria na qual se acumularam acertos, mas também os mais importantes erros teóricos e práticos dos comunistas. A oscilação entre formulações programáticas adequadas à época e às correlações de força, o “esquerdismo” e o oportunismo de direita sempre puseram em tensão as fileiras partidárias e provocaram grandes cisões.

A ruptura com o revisionismo contemporâneo, fortemente marcada por acontecimentos externos ao país e pertinentes ao movimento comunista internacional, foi provocada também, como assinalamos acima, por razões internas, relacionadas com a tática e a estratégia da revolução brasileira e a construção do Partido.

Foi a partir da reorganização revolucionária em 1962 e da experiência acumulada na luta contra a ditadura militar iniciada em 1964, que o partido desenvolveu seus princípios de estratégia e tática e firmou sua linha política.

O núcleo marxista-leninista formado após a conferência de 1962 pelos camaradas João Amazonas, Maurício Grabois, Carlos Danielli e Pedro Pomar dirigiu a formulação de uma estratégia revolucionária, baseada nos princípios do marxismo-leninismo, e de uma tática simultaneamente ampla, combativa e flexível, noções indissociáveis. O Partido aprendeu que era indispensável enraizar-se entre as massas, inserir-se no curso político, enfrentar os grandes e pequenos embates políticos do cotidiano, concertar alianças amplas e acumular forças revolucionariamente.

Os princípios de estratégia e tática que o Partido desenvolveu derivavam de uma análise concreta da situação concreta e da evolução histórica do país. Sob a dominação do imperialismo e do regime das classes dominantes reacionárias, não havia perspectiva para o desenvolvimento soberano do Brasil nem para abrir caminho ao socialismo. O núcleo marxista-leninista do Partido considerava que o desenvolvimento capitalista do Brasil é essencialmente dependente, assentado sobre uma estrutura que tem por base o monopólio da terra e a subordinação do país aos interesses do capital monopolista e financeiro internacional.

Mérito inquestionável dos comunistas brasileiros é terem desenvolvido uma visão aguda sobre as classes dominantes, que em sua parte majoritária é sócia menor dos imperialistas, em detrimento do progresso e da soberania nacional.

Em tempo hábil, e rompendo com a visão que dera origem à Declaração de Março de 1958, o Partido compreendeu que o desenvolvimento capitalista dependente se agravava ainda mais na fase aberta com a mundialização da economia, que a concentração do capital e da produção criava uma situação de maior dependência dos países de desenvolvimento mediano, hoje chamados de emergentes. O Partido passou a apontar como tendência malsã e prejudicial ao desenvolvimento nacional que a economia nacional fosse complementar à dos países ricos, no quadro da mundialização e do neoliberalismo, e as políticas econômicas e financeiras, chamadas macroeconômicas, submetessem o sistema financeiro do país. Interessante observar que na luta interna que resultou no rompimento com o oportunismo de direita no início dos anos 1960, era implacável a crítica dos marxistas-leninistas ao nacional-desenvolvimentismo sob hegemonia da grande burguesia brasileira.

João Amazonas fazia uma análise implacável sobre as classes dominantes. Dizia, na redação do Programa Socialista aprovado na Conferência Nacional de 1995 e ratificado no 9º Congresso (1997):

“O desenvolvimento deformado da economia nacional, o atraso, a subordinação aos monopólios estrangeiros e, em consequência, a crise econômica, política e social cada vez mais profunda, são o resultado inevitável da direção e do comando do país pelas classes dominantes conservadoras. Constituídas pelos grandes proprietários de terra, pelos grupos monopolistas da burguesia, pelos banqueiros e especuladores financeiros, pelos que dominam os meios de comunicação de massa, todos eles, em conjunto, são os responsáveis diretos pela grave situação que vive o país. Gradativamente, separam-se da nação e juntam-se aos opressores e espoliadores estrangeiros. As instituições que os representam tornaram-se obsoletas e inservíveis à condução normal da vida política. Elitizam sempre mais o poder, restringindo a atividade democrática das correntes progressistas. A modernização que apregoam não exclui, mas pressupõe, a manutenção do sistema dependente sobre o qual foi construído todo o arcabouço do seu domínio.”

Os comunistas brasileiros compreenderam também que a luta democrática e patriótica pelo desenvolvimento, a soberania nacional, em defesa da nação ameaçada pela voragem neoliberal, era no fundo um aspecto da luta de classes, inseparável da luta pelo socialismo na fase peculiar que o Brasil vivia.

O Programa Socialista (1995/1997) dizia: “Tais classes não podem mudar o quadro da situação do capitalismo dependente e deformado. Sob a direção da burguesia e de seus parceiros, o Brasil não tem possibilidade de construir uma economia própria, de alcançar o progresso político, social e cultural característicos de um país verdadeiramente independente. Na encruzilhada histórica em que se encontra o Brasil, somente o socialismo científico, tendo por base a classe operária, os trabalhadores da cidade e do campo, os setores progressistas da sociedade, pode abrir um novo caminho de independência, liberdade, progresso, cultura e bem-estar para o povo, um futuro promissor à nossa Pátria”.

Referenciado no marxismo-leninismo e numa interpretação científica da evolução histórica do Brasil, de sua complexa e peculiar formação, o PCdoB tem presente que a luta pelo socialismo no país não é um processo em linha reta. Na condução dessa luta, os comunistas compreenderam que deviam tomar em consideração essas peculiaridades, assim como a correlação de forças estratégicas no plano mundial. Os processos internos e externos determinam que a luta pelo socialismo percorra várias etapas.

Nos idos de 1992, quando a regra geral era o liquidacionismo, o Partido foi firme (8º Congresso) na defesa dos princípios do socialismo científico, do marxismo-leninismo e da construção do socialismo, sobretudo da experiência de construção do socialismo na URSS, malgrado os graves erros ali cometidos. Tinha resvalado em desvios dogmáticos, que vêm sendo corrigidos ao longo do tempo. Desafio neste terreno é não trocar o dogmatismo pelo revisionismo.

Ao tirar lições da derrota, o Partido orientou: “Embora em suas linhas mestras o socialismo científico seja idêntico em todos os países, sua concretização em cada lugar exige ponderar as particularidades locais, nacionais. Essas particularidades dão feição própria ao regime avançado que substitui o capitalismo. O modelo único de socialismo é anticientífico”.

Uma luta árdua

Ponto alto do amadurecimento programático, estratégico e tático da direção comunista são as formulações contidas no capítulo intitulado “O caminho para alcançar o socialismo”, do já aludido Programa Socialista (1995/1997).

Ali afirma-se que a conquista do socialismo é um caminho de “árdua disputa” com “as classes retrógradas que dominam o país”. Durante o rico debate nas fileiras partidárias em torno da elaboração desse programa, João Amazonas identificava essas classes como “forças poderosas que não cederão facilmente as posições que detêm”.

Sempre referenciado no materialismo histórico, dizia: “A máquina do Estado está em suas mãos. Utilizarão o engodo e as promessas jamais cumpridas, o monopólio da mídia, recorrerão ao arbítrio, apelarão para o fascismo, não vacilarão em juntar-se aos intervencionistas estrangeiros a fim de tentar conter e esmagar o movimento progressista. Todos os que almejam uma pátria livre e soberana, que desejam avanços contínuos nos terrenos político, econômico, social e cultural, terão de enfrentar decidida e persistentemente as forças inimigas”.

 Esta concepção tem orientado o pensamento e as ações do Partido, que aprendeu também que o caminho para o socialismo passa “pela realização de inúmeras batalhas em diferentes níveis com a ampla participação do povo”. A luta pelo socialismo não pode ficar restrita à propaganda revolucionária, sendo indispensável atuar no curso político real, estar presente nos pequenos e grandes combates do povo.

Esta compreensão está sintetizada no Programa Socialista (1995/1997): “Importância particular na mobilização das massas, buscando isolar ou neutralizar os inimigos, tem a fixação de objetivos concretos de nível mais elevado” (…) “Nesse sentido, adquire significado primordial a defesa da soberania e da independência nacional; a exigência de democratização ampla e profunda da vida do país; os reclamos da questão social em constante agravamento. São objetivos relacionados com a questão do poder, visando tirar o Brasil do atraso e da pobreza, garantir a liberdade para o povo, afirmar a identidade nacional. Essa luta apresenta não apenas aspecto tático. Perdurará por largo período e somente terminará com a vitória definitiva das forças progressistas. As classes dominantes não têm alternativa. Insistirão até o fim na política entreguista, antinacional, persistirão na via antidemocrática e antissocial”.

Este é o núcleo do pensamento tático e estratégico do PCdoB. É resultado, acima de tudo, da experiência. Por isso, o Partido não se perde nas ínvias encruzilhadas com que se depara. Este núcleo de ideias orienta a atuação nos campos eleitoral, parlamentar, no exercício de funções em governos nas diferentes esferas, na luta de massas, na ampla e flexível política de alianças, na condução tática em cada momento peculiar do desenvolvimento político do país, na luta teórica-ideológica.

É, enfim, esse pensamento, a chave para compreender o papel da acumulação de forças no processo revolucionário: “Todo o procedimento político e organizativo, relacionado com o caminho para o socialismo” – dizia Amazonas – “objetiva acumular forças, ganhar prestígio e influência no seio do povo”.

“A conquista do socialismo é obra das amplas massas, dos trabalhadores em geral. Exige, na atualidade, a criação de uma sólida frente nacional, democrática e popular, reunindo partidos, personalidades políticas e democráticas, organizações de massas, defensores da soberania nacional, agrupamento decidido a derrocar as classes reacionárias e a realizar as transformações de que o Brasil necessita”.

Evolução do pensamento estratégico e tático

O pensamento tático e estratégico do Partido Comunista do Brasil foi plasmando-se ao longo do tempo. A visão combativa, ampla e flexível de acumular forças foi desenvolvendo-se em cima das batalhas concretas.

Na luta contra a ditadura, na 6ª Conferência Nacional (1966), realizada em plena clandestinidade, o PCdoB formulou a ideia da “união dos brasileiros para livrar o país da crise, da ditadura e da ameaça neocolonialista”.

 Quando a ditadura militar assumiu abertamente um caráter fascista e escolheu o terror de Estado como método de guerra contra o povo, os comunistas se alçaram em armas na Guerrilha do Araguaia, mantendo a perspectiva da luta política e de massas. Os documentos emitidos pela Guerrilha indicavam a perspectiva política e de luta de massas dos comunistas naquele momento dramático.

Durante a ditadura militar, que foi a noite dos tempos para nossa Pátria, sob o tacão de generais fascistas, torturadores, opressores e entreguistas, os comunistas, aberta ou clandestinamente, com a cara própria ou mimetizados, nunca fugiram aos embates políticos nem deixaram de ser amplos e taticamente flexíveis.

Ainda no auge do regime arbitrário, sob a presidência do general Geisel, algoz da Lapa, em cujo governo eram comuns as torturas e os assassinatos de opositores, o Partido abria o caminho da luta política e até mesmo da atuação parlamentar. Sob a orientação do documento “Conquistar a liberdade política, alcançar a democracia popular” (1976), o Partido formulou as bandeiras de luta pela revogação dos atos e leis de exceção, pela anistia ampla, geral e irrestrita e pela convocação da Assembleia Constituinte livremente eleita.

 

A mesma perspectiva de aplicar uma tática ampla, combativa e flexível para acumular forças esteve presente na luta pelas Diretas Já, no apoio à eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, no apoio crítico à Nova República, na ação legislativa e nas ruas durante os trabalhos da Constituinte (1987 e 1988), no apoio à nova Constituição, nas campanhas pela eleição de Lula presidente da República (1989, 1994, 1998, 2002 e 2006). E nas campanhas vitoriosas da presidenta Dilma, em 2010 e 2014. Faz parte do positivo balanço da estratégia e tática dos comunistas a ação política durante os governos sob a égide do PT, entre 2003 e 2016.

Identidade comunista e revolucionária

O outro aspecto essencial do pensamento e da ação do PCdoB é a luta persistente para construir um partido comunista organicamente forte, ideológica e politicamente capaz, à altura da sua missão histórica, ligado às massas, em especial aos trabalhadores, um Partido com força militante, influência política ampla, presente nos acontecimentos candentes, dotado de amplo horizonte histórico, cultural e teórico, enraizado no solo nacional, patriótico e internacionalista. Nos idos de 1945 a 1948 construímos um partido com algumas dessas características que tinha, ademais, força eleitoral. Hoje está em curso uma complexa edificação, que necessita de persistência no rumo e constante avaliação, verificação e aperfeiçoamento.

Os nossos esforços atuais estão voltados para construir um partido de vanguarda, de massas e de quadros, renovado nas formas de atuação e de organização, sem copiar modelos, em constante atualização de métodos, mantendo sempre os princípios de um partido com identidade comunista, perspectiva estratégica socialista e marcado caráter de classe como partido dos trabalhadores.

Avançar e superar debilidades, evitar desvios de rota e contornar os perigos de degenerescência ideológica e orgânica, requer tomar como referência constante esses conceitos e métodos. Esta é a melhor maneira de homenagear os mártires e heróis do partido quando se comemora uma efeméride tão importante como os 55 anos da reorganização do Partido sobre bases marxistas-leninistas.

É preciso descortino

Não está ainda plenamente configurada a nova correlação de forças que levará a humanidade a novo ciclo revolucionário. Mas tampouco essa correlação de forças forma-se por geração espontânea, cabendo aos partidos que lutam pelo socialismo adotar linhas estratégicas, procedimentos táticos e métodos de ação consoantes a necessidade de abordar a luta pelo socialismo nas novas condições. O fator consciente também faz parte das mudanças de correlação de forças. E, por óbvio, a ausência temporária de uma correlação de forças favorável à ofensiva revolucionária não pode nem deve servir de pretexto a uma estratégia e tática de conciliação e adesão ao inimigo. Em nenhuma circunstância os partidos revolucionários se deixam capturar pelas artimanhas do inimigo de classe.

Diante do capitalismo-imperialismo em profunda crise que põe de manifesto a senilidade do sistema, das políticas neoliberais dos governos conservadores e sociais-democratas, das políticas de guerra do imperialismo, da natureza reacionária do sistema político e econômico burguês, ganha relevo a questão: encontra-se na ordem do dia a tarefa de lutar por melhorias no capitalismo, de combater as “deformações” da globalização e as “perversões” da crise, ou a tarefa de elaborar estratégias, táticas e pôr em prática métodos revolucionários que conduzam os trabalhadores em todo o mundo à luta pelo socialismo como único caminho para superar os inarredáveis impasses com que a humanidade está confrontada? Adaptação ou resistência e luta, eis o dilema em face do qual se encontram as forças de esquerda. Resistir e lutar, sempre, diz-nos o legado da história que hoje celebramos.

O sistema capitalista já não tem condições de assegurar a democracia política e o progresso social. A premissa para essas conquistas é a revolução política e social e a superação das atuais estruturas e superestrutura da sociedade. A conquista de direitos políticos e sociais plenos, que assegurem o poder político para os trabalhadores e a emancipação social não emanarão de um “aperfeiçoamento” do sistema burguês nem serão dádivas das classes dominantes, aliás cada vez mais reacionárias.

Comemorar o 55º aniversário da refundação do Partido Comunista do Brasil sobre bases marxistas-leninistas é se disponibilizar por inteiro a começar uma nova luta por alternativas de fundo, com caráter democrático, nacional e popular, que representem uma ruptura com o estado atual de coisas. Para as forças anti-imperialistas, revolucionárias, progressistas, partidárias do socialismo, trata-se de retomar a luta pelo socialismo nas novas condições do século 21.

Naturalmente, o movimento revolucionário vive ainda sob o impacto das derrotas sofridas pelo socialismo no início dos anos 1990, as quais produziram significativa mudança nas correlações de força e debilitaram o fator subjetivo. O começo dos anos 1990 foi marcado pelas derrotas generalizadas da revolução e do socialismo, o que gerou na esquerda um ambiente desfavorável, de desmoralização, descrédito e fracasso. Esse ambiente não está totalmente superado, mas estamos vivendo um recomeço, uma nova transição.

No reposicionamento da luta pelo socialismo, não se pode ser fatalista e captar apenas os sinais da ofensiva reacionária. É preciso perceber as novas potencialidades revolucionárias que estão despertando. O caminho que percorrerá a nova luta pelo socialismo não será fácil nem retilíneo. Esta luta se confronta em cada momento, em cada batalha, com um colossal sistema de dominação que não cederá pacificamente as suas posições. Se os trabalhadores e os povos querem um novo sistema político, econômico e social, liberdades, soberania e direitos, paz e segurança, terão de encetar a luta política de classes, na qual hão de ter firmeza diante da força, sabedoria em face do engodo, uma elevada consciência política-ideológica, força organizativa, tirocínio tático-estratégico e capacidade de combate em face de inimigos poderosos.

A celebração do 55º aniversário da reorganização do PCdoB sobre bases revolucionárias é uma ocasião propícia para cultivar esses valores e renovar esta disposição de lutar. Isto implica superar debilidades e enfrentar concepções falsas sobre a condução estratégica e tática da luta política de classes, a organização do Partido e da esquerda revolucionária. O elemento fundamental do Partido Comunista e das forças de esquerda consequente é a resistência e a luta transformadora. O fulcro da organização partidária são as classes trabalhadoras, as forças democráticas, patrióticas e populares. Construir organismos de base, antes dos comitês eleitorais, valorizar o militante e o quadro partidário, antes das celebridades “companheiras de viagem” e os “filiados por razões eleitorais”, categoria esdrúxula, dar força aos dirigentes de lutas políticas e sociais, que são lutadores e dirigentes e não cabos eleitorais, assegurar o funcionamento das instâncias partidárias estatutariamente constituídas, e não subordinar o funcionamento do Partido às conveniências de eleitos, titulares de cargos parlamentares e de governos, que aliás não são obtidos por méritos pessoais e sim pelo esforço do coletivo partidário. Assegurar o centralismo democrático, que somente é possível com a disciplina consciente e o funcionamento regular das instâncias, desde a base ao Comitê Central. O eixo da acumulação de forças tem de ser a luta política de massas, à qual deve servir a luta parlamentar e a ação institucional em poderes locais e eventualmente, quando for o caso, no poder nacional.

O Brasil vive hoje sob a emergência de um golpe de Estado conduzido por uma coalizão reacionária de amplo espectro, encabeçada pelo PSDB, o PMDB e o DEM, com a cumplicidade de forças centristas e até de supostas forças de centro-esquerda. São ainda maiores e mais graves os impasses nacionais.

Os comunistas e as forças consequentes da esquerda devem apostar na elevação da consciência e da vontade de resistir e lutar do povo brasileiro para enfrentar as forças golpistas e retomar o caminho para lutar pela realização de mudanças estruturais, que resultem na edificação de um país democrático, progressista, socialista. Estão na ordem do dia tarefas urgentes entrelaçadas: desenvolver a luta política de massas, forjar a unidade das forças da esquerda consequente, criar a frente ampla, de que façam parte todas as forças democráticas e patrióticas suscetíveis de se unir na luta contra o regime do golpe e por mudanças estruturais. Entre essas tarefas, para os comunistas, está a de construir um partido comunista, com base militante, estrutura orgânica, capacidade de intervenção política e eleitoral, ligação com as massas trabalhadoras e populares, densidade ideológica marxista-leninista e perspectiva socialista.

Foi por isso que lutaram os camaradas, sob a liderança de Amazonas e Grabois, pela refundação do Partido em 18 de fevereiro de 1962.

*Jornalista, editor do Resistência, membro do Comitê Central, Comissão Política e Secretariado do PCdoB

Mobilização do povo e unidade ampla para derrotar o governo golpista

Com as eleições às mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, a designação das lideranças da coalizão governista nas duas casas e a nomeação de mais um membro da cúpula tucana para o núcleo político do Planalto, o regime do golpe completa o alinhamento das suas fileiras para dar continuidade à brutal ofensiva antinacional e antipopular no início do ano político de 2017.

Por José Reinaldo Carvalho*

A esquerda, por seu turno, aprofundou suas divisões, não somente com o confronto entre partidos do mesmo campo, mas também no interior de cada um.

Superado o debate sobre a posição do PCdoB nas eleições das mesas da Câmara e do Senado, viro a página, com olhos postos no rumo da luta por transformações revolucionárias no Brasil e no mundo, e nas tarefas imediatas.

Importa agora, diante da emergência que o país está vivendo, sob golpe de Estado, empenhar-se para fazer convergir posições a fim de enfrentar o governo golpista e suas medidas lesivas aos direitos do povo, batalha que se prenuncia dura, porquanto os presidentes eleitos das duas casas legislativas, embora afirmando que promoverão o diálogo em torno das matérias legislativas correspondentes a essas medidas, foram taxativos em dizer que darão toda a prioridade à sua aprovação, destacadamente as reformas previdenciária e trabalhista, ainda neste semestre, explicitando de antemão sua identidade com estas.

As forças progressistas devem ter a consciência de que se confrontarão com o rolo compressor da maioria governamental tanto na Câmara quanto no Senado, onde a “defesa da autonomia do Legislativo” será grandiloquente, por razões corporativas, nos embates contra um Judiciário discricionário e legiferante, mas se adaptará ao ditame do Executivo, com o qual alterna relações de submissão e cumplicidade. Não se espera das atuais maiorias no parlamento e das suas lideranças senão empenho extremado para viabilizar a agenda do governo. Assim, objetivamente, nos embates em torno dessa agenda os presidentes recém-eleitos agirão, como se depreende de suas declarações e atitudes, não como chefes de um poder independente, sua precípua função, mas como líderes de fato do governo golpista.

O povo brasileiro espera das forças progressistas que atuam no parlamento oposição firme e consequente à agenda do governo e de sua base de apoio, capacidade de denúncia na tribuna e no plenário, resistência e luta, o exercício do direito à obstrução, a criação de condições para deter a virulenta ofensiva da coalizão governista, de que fazem parte as mesas diretoras. E o voto contrário a todas e quaisquer medidas lesivas à soberania nacional e aos direitos sociais, trabalhistas, previdenciários, civis, humanos e democráticos.

Será tanto mais eficaz esta luta, quanto for plena a compreensão sobre o caráter do regime instituído desde o golpe de Estado de 2016, cujo desfecho teve como protagonista principal esta mesma maioria parlamentar reacionária e golpista.

Por isso, a ação no parlamento no atual momento político, do ponto de vista das forças progressistas, tem como pressuposto a luta contra o regime golpista, a oposição tenaz, firme, inconciliável e consequente ao governo usurpador e ilegítimo de Michel Temer, o uso dos meios disponíveis para impedir a aplicação da sua agenda, em consonância com os movimentos sindicais e populares, agrupados em torno da Frente Brasil Popular, e as ações nas ruas e em outros âmbitos da luta social.

É preciso compreender o caráter central na tática das forças progressistas da luta pela derrubada do governo e para derrotar sua agenda. Com o golpe de 2016, o Brasil está vivendo uma etapa política inteiramente nova. Se não se tiram todas as lições disso, corre-se o risco de fazer uma luta apenas retórica contra o regime do golpe, focando a ação parlamentar e política apenas sobre os seus efeitos mais nocivos.

A propósito, é falsa a tese de que diante do “golpe dentro do golpe” e da proeminência da Operação Lava Jato na situação política, o “mal menor” seria a permanência, mesmo enfraquecido, do presidente usurpador, ilegítimo e golpista no poder até 2018. Falso também arriar a bandeira “Fora, Temer!” sob a alegação de que não há correlação de forças para derrubar o governo e o pretexto de que seria “quase impossível” convocar eleições diretas antecipadas, e vencê-las, na hipótese de que se realizassem. Assim, a luta pela eleição direta para presidente da República deveria, segundo esse argumento, ser feita sem ênfase, entrando no foco como palavra de ordem de ação apenas “caso o governo Temer se inviabilize”.

Mais falso ainda e prejudicial ao combate das forças progressistas, porque as atiraria no colo do inimigo, é a tese recorrente de que a saída para a crise política é o entendimento, a conciliação nacional entre o governo, as forças que o apoiam e a oposição. Partindo da constatação de que a divisão de campos “não se restringe a uma disputa entre golpistas e não golpistas”, propõe-se a aliança com uma das alas do golpe, supostamente o centro político. Certamente, é necessária uma formulação não simplista, que corresponda à complexidade da situação, mas a pior de todas elas seria a que escamoteasse a existência de um campo golpista.

O combate ao arrocho draconiano que o governo está promovendo na economia também tem de ser feito com frontalidade, porquanto implica perda de direitos do povo. Em pleno período do pré-golpe, as vacilações quanto a esse combate se expressavam por meio da tese de que o arrocho fiscal era obrigatório, “com Dilma ou sem Dilma”.

A luta contra o governo Temer e a coalizão que o sustenta será dura, intensa e de longo fôlego. Exigirá a mobilização e a organização do povo nas ruas, locais de trabalho, moradia e estudo, parlamento nacional, parlamentos estaduais e municipais e demais instituições de poder local. Seu êxito dependerá da unidade das esquerdas e da ampla união de forças democráticas, progressistas e patrióticas.

Para os comunistas será sempre imperioso combinar uma tática ampla, combativa e flexível com uma estratégia revolucionária de emancipação nacional e social, com perspectiva socialista. Qualquer dissonância entre tática e estratégia nos levaria ao oportunismo – de direita ou de “esquerda”.

*Membro do Comitê Central, Comissão Política e Secretariado Nacional do PCdoB. Editor do Resistência [www.resistencia.cc]

 

O conceito leninista de "esquerdismo" e seu uso deturpado

Virou moda na política acusar de “esquerdistas” quem tem posições contrárias. Além da intolerância com o pensamento divergente, – “a liberdade é sempre a liberdade de quem pensa de modo diferente”, já dizia Rosa Luxemburgo[1] em 1918 – demonstra desconhecimento, distorção ou banalização do conceito leninista de “esquerdismo”.

Por Penélope Toledo*

Contexto político-histórico-social diferente do Brasil de 2016 e 2017

O conceito é desenvolvido por Lênin no livro “Esquerdismo: doença infantil do comunismo”[2], escrito em 1920, período pós-revolucionário e de construção da Terceira Internacional Comunista. Esta tinha como tônicas a consolidação das ideias da Revolução Russa de 1917 e a defesa do marxismo revolucionário frente às deformações oportunistas e revisionistas que marcaram a Segunda Internacional e a Segunda Internacional e Meia.

Portanto, um contexto político-histórico-social completamente diferente do Brasil de 2016, que vive um momento de golpe de Estado burguês – e declaradamente anticomunista – e de esvaziamento das lutas de massas.

Crítica ao boicote à atuação nos sindicatos reacionários e no parlamento burguês

As duras críticas de Lênin se dirigem às/aos comunistas “de esquerda” russas/os, estadunidenses e, principalmente, europeias/eus, que propunham o boicote à atuação nos sindicatos reacionários e no parlamento burguês. Ele critica tais tendências esquerdistas, que em alguns casos chegavam a flertar com o anarcossindicalismo, em países como Inglaterra, França, Alemanha e Holanda da primeira metade do século 20.

Sobre os sindicatos reacionários, Lênin explica que não atuar neles é abandonar as massas à influência da burguesia e que “a tarefa dos comunistas consiste em saber convencer (grifos do autor) os elementos atrasados, saber atuar entre eles, e não em isolar-se”. Diz, também, que esta ação deve transformar a greve econômica em greve política e a greve política em insurreição.

Lênin defende a atuação no parlamento burguês, porque as massas o reconhecem e o partido da classe tem que ser conduzido como o partido da massa, em vez de viver à sua margem. Além disto, permite que se use as tribunas parlamentares para popularizar as palavras de ordem revolucionárias entre o povo e demonstrar-lhe por que o parlamento tem que ser dissolvido.

Lênin usa como exemplo os bolcheviques, que participaram da Assembleia Constituinte em setembro-novembro de 1917, mesmo com a Revolução.

Como a polêmica sobre atuar em sindicatos e no parlamento burguês no Brasil de 2016 é superada, as críticas leninistas não se aplicam. Nossas/os comunistas estão nos sindicatos e dirigem a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), e têm representantes no Senado, Câmara dos Deputados, Assembleia Legislativa e Câmaras dos Vereadores. Atuam até no Poder Executivo dos estados e municípios.

E vale ressaltar que Lênin fala sobre participar dos sindicatos e usar as tribunas parlamentares de modo comunista, “assentada na estreita vinculação a uma estratégia revolucionária de tomada de poder”, como explica Ronaldo Coutinho na introdução do livro.

As ideias de Lênin não são “receitas aplicáveis a qualquer caso”

Além da diferença dos contextos político-histórico-social e da crítica referir-se à atuação nos sindicatos reacionários e no parlamento burguês, as ideias de Lênin não são “receitas aplicáveis a qualquer caso”, conforme adverte Lukács[3]. “Suas ‘verdades’ brotam da análise concreta da situação concreta com ajuda da concepção dialética da história”.

Alguns conceitos evidentemente são universais, mas há que se aplicar o que tem de universalmente aplicável, levando em conta a situação objetiva e a unificando ao conhecimento da tendência geral, isto é, teoria e prática.

Portanto, qualquer comparação com o Brasil de 2016 e 2017 tem que necessariamente ser feita à luz de um golpe de Estado burguês e da compreensão de que por isto, trata-se de um momento político extraordinário e não corriqueiro.

Os bolcheviques, por exemplo, em 1905, boicotaram a Duma consultiva convocada pelo czar e com isto conseguiram impedir a sua convocação, sendo esta liquidada pela revolução de outubro do mesmo ano.

A necessidade do estudo teórico e da formação político-ideológica

Para quem já leu a obra, vale a pena revisitá-la, pois é importante este reencontro permanente com as ideias e conceitos leninistas. Para quem não leu, é uma leitura indispensável às/aos comunistas, pois formam a sua base ideológica e salvo as particularidades contextuais, são ideias muito atuais.

Há de se reforçar a necessidade do estudo teórico e da formação político-ideológica. Marx passou a sua vida inteira estudando a economia inglesa, a filosofia alemã e o socialismo utópico francês, que formam a base de seu pensamento político.

Lênin também falou sobre isto: “Sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário. Nunca será demasiado insistir nessa ideia”[4].

[1] LUXEMBURGO, Rosa. p. 205-206. “A Revolução Russa” in LOUREIRO, Isabel Rosa Luxemburgo, textos escolhidos, vol. 2. São Paulo: UNESP, 2011.

[2] LENIN, Vladimir Ilitch. Esquerdismo: doença infantil do comunismo. 1 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2014. 176 p.

[3] LUCKÁS, György. p. 97. Lenin: um estudo sobre a unidade de seu pensamento. São Paulo: Boitempo, 2012.

[4] LENIN, Vladimir Ilitch. P. 81. Que Fazer? São Paulo: Expressão Popular, 2010.

* Jornalista, militante do PCdoB no Rio de Janeiro

Jerónimo de Sousa: “Comemoraremos os 100 anos da Revolução de Outubro reafirmando que fomos, somos e seremos comunistas!”

Em ato político realizado neste sábado (28) em Lisboa, o secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), Jerónimo de Sousa, inaugurou o programa de atividades comemorativas do 100º aniversário da Revolução de Outubro, que transcorre este ano. Leia a íntegra do seu pronunciamento.

Abrimos aqui com esta iniciativa o diversificado programa do Centenário da Revolução de Outubro que o Comitê Central do PCP decidiu, e que se desenvolverá durante o presente ano de 2017 – um ano que queremos seja de celebração desse acontecimento maior e marcante no longo percurso de luta de gerações de explorados e oprimidos, mas também de reflexão, debate, ensinamento e experiência para a luta de hoje e de amanhã e, acima de tudo, de reafirmação da validade do ideal e do projeto comunista que abraçamos e que continua vivo e com futuro.

Celebraremos a Revolução de Outubro com o seu caráter inaugural de uma nova época histórica que não terminou e para lá de todas as vicissitudes: a era da passagem do capitalismo ao socialismo. A primeira revolução triunfante, dirigida autonomamente pela classe operária e seus aliados, mormente o campesinato pobre, pelo seu partido de classe, o Partido Bolchevique, o partido de Lênine. A primeira experiência de edificação de um tipo de sociedade nunca antes conhecido pela humanidade na sua história. Celebraremos essa revolução vitoriosa, portadora de memórias de lutas e de sonhos de emancipação dos explorados e oprimidos, e o que transporta de desejo de futuro. Celebraremos a Revolução de Outubro pelo que projetou de profundas transformações a nível planetário, mudando a face do mundo, as suas realizações, conquistas e transformações a favor dos trabalhadores e dos povos.

Nestes cem anos que nos separam do início da Revolução de Outubro, os protagonistas dos processos de emancipação e transformação social, os defensores da sociedade nova sem exploradores nem explorados, os que a construíam e os que lutavam por ela, enfrentaram uma impiedosa guerra ideológica que assumiu uma dimensão gigantesca a partir dos acontecimentos que ditaram a derrota do socialismo na URSS e no Leste da Europa.

Os acontecimentos foram festivamente anunciados pelos propagandistas do capitalismo como prova do fracasso histórico do ideal comunista.

A ideologia burguesa e uma encenada e colossal propaganda imperialista, celebravam a vitória do capitalismo, tornado sistema mundial, e apresentava-o como o estádio final da história humana, e anunciavam o início de um novo ciclo de paz e prosperidade que a vida nunca confirmaria.

Era o tempo das célebres teses do “fim da história” e do “fim da luta de classes”, dos anúncios da nova ordem em que a “democracia liberal” como sistema político e o “livre mercado” como sistema econômico sairiam vencedores “naturais” e absolutos, e que levou George Bush a desencadear a Guerra do Golfo e a proclamar uma “nova ordem mundial” totalitária, dominada pelos Estados Unidos.

Os objetivos desta violenta guerra ideológica eram claros: a reabilitação e tentativa de eternização do capitalismo e de ataque e tentativa de demolição completa dos projetos de transformação revolucionária e de emancipação humana. Uma operação de desinformação, intoxicação e manipulação das consciências brutal à escala planetária, que visava erradicar das aspirações e do horizonte da ação dos homens qualquer possibilidade de concretização de um projeto emancipador que o projeto comunista transporta. Por cá, decretaram a nossa própria morte e davam como certo o nosso irreversível declínio. Falharam nas suas profecias, nesta e nas que prediziam o fim da história.

Decretavam, então, a inutilidade da ação coletiva, da luta dos trabalhadores e dos povos e promoviam profusamente a pedagogia da renúncia, do conformismo e da resignação, ao mesmo tempo que apresentavam as grandes conquistas históricas dos trabalhadores e dos povos como arcaísmos ou inaceitáveis direitos corporativos. Vimos isso com muita evidência em Portugal, pela mão de sucessivos governos nos últimos anos e com enorme violência e intensidade.

Reescreveram a história e continuam a fazê-lo ao sabor das suas conveniências sempre tendo como linha de rumo enclausurar o sonho e a esperança e eclipsar a memória coletiva dos povos, afastá-los da compreensão dos processos que marcam os últimos cem anos na vida do mundo contemporâneo. Em relação à Revolução de Outubro mistificam culpando-a pelas deformações, erros e desvios, que em determinadas condições históricas, deram origem a um “modelo” que se prolongou no tempo e, como temos afirmado, se afastou e contrariou o ideal e o projeto comunistas em questões fundamentais do ideal comunista e dos objetivos que conduziram à sua realização. Mistificação que se alarga à falsa ideia de que tal modelo é intrínseco ao pensamento e programa do marxismo-leninismo. Eles sabem que a verdade é outra, mas a sua odiosa sanha contra a Revolução de Outubro, as suas deliberadas mistificações são a única forma de, desvalorizando e denegrindo esse acontecimento histórico singular que permitiu a largas massas tomar o destino nas suas próprias mãos, retardar o fazer e refazer do caminho da alternativa ao capitalismo que a Revolução de Outubro continua a significar e a indicar – o socialismo e o comunismo.

Sim, a Revolução de Outubro continua a anunciar que outro mundo é possível! E não é o fato de o empreendimento da construção da nova sociedade – a sociedade socialista – se ter revelado mais difícil, mais complexa e mais acidentada do que nós, comunistas, prevíamos e anunciávamos, que se pode pôr em causa a sua justeza e a sua necessidade.

Menos de duas décadas depois das proclamações vitoriosas de um capitalismo inultrapassável e o mundo estava já confrontado com o agravamento da crise estrutural do sistema capitalista, uma das maiores crises cíclicas que rompe no epicentro do sistema, e hoje a vida e a realidade estão a encarregar-se de escrever uma outra história, bem diferente da história anticomunista e falsificadora que tropeça cada vez mais contra o movimento de resistência, de recuperação de energias, forças e vontades dos que veem e sentem que o capitalismo é a causa dos graves problemas e flagelos que assolam o mundo e a vida dos povos.

Não estamos a anunciar facilidades e sabemos quantas dificuldades ainda enfrentam os que lutam pela concretização de uma alternativa emancipadora dos trabalhadores e dos povos, mas a afirmar que, ao contrário do que pretende a sua propaganda apologética, o capitalismo não se pode considerar um sistema definitivo, como sempre o afirmou o PCP e, particularmente, o evidenciou com fundamentadas análises no momento dos trágicos acontecimentos no Leste europeu e na URSS no início dos anos noventa.

Tal como não subestimamos o impacto negativo na consciência das massas e na correlação de forças mundial do profundo revés das derrotas do socialismo na URRS e no Leste da Europa e das acrescidas dificuldades que colocaram aos combatentes que assumem a luta pelo socialismo. Revés, cujas causas identificamos nos nossos congressos – onde pesam, entre outras, o enfraquecimento da natureza popular do poder político, um poder que crescentemente se afastou da opinião, controle e intervenção dos trabalhadores e das massas populares. Análises e experiências que temos em conta e enriquecem o riquíssimo patrimônio deste Partido quase centenário e o seu próprio projeto de construção do socialismo em Portugal.

Análises que mantêm toda a validade e atualidade e que deram também uma resposta política e ideológica identificando grandes tendências da evolução mundial. Dizíamos então: “O capitalismo na atualidade, tal como o revelou ao longo do século, confirma a sua incapacidade, como sistema, de resolver os grandes problemas da humanidade (…) O processo de libertação social e nacional dos povos é irregular, complexo e demorado. Mas constitui o sentido fundamental da época contemporânea”.

Dizíamos e alertávamos: a “nova-ordem mundial” hegemonizada pelos EUA e outras grandes potências imperialistas encerram enormes perigos para a paz, a liberdade, a democracia, a independência, o progresso social. Não nos enganamos!

A anunciada paz proclamada pelo imperialismo nesses desastrosos anos, não tardaria a ser desmentida. As duas guerras do Golfo, as intervenções no Corno de África, a guerra da Iugoslávia; do Iraque; a invasão do Afeganistão; a profusão de conflitos no continente africano desde o Sudão, à República Centro Africana, passando pelo Mali, Chade, Costa do Marfim, Somália e Etiópia, entre outros; as sucessivas agressões à Palestina; a guerra contra o Líbano; a agressão à Líbia; o golpe de Estado na Ucrânia; a ingerência e a agressão à Síria, são exemplos claros de uma escalada belicista do imperialismo e a negação de que a evolução da situação internacional seria marcada por um desanuviamento no plano militar.

As consequências estão aí expressas no dramático rasto de morte, a destruição de países inteiros e os milhões de refugiados, realidades que sublinham e exigem o reforço da luta pelo desarmamento e a paz.

Segundo a ONU, mais de 1,5 bilhão de pessoas, cerca de um quinto da população mundial, vivem hoje em países afetados por conflitos. Mais de 45 milhões de pessoas eram deslocadas em virtude de conflitos ou perseguições e mais de 15 milhões destes são refugiados.

A prometida e profusamente proclamada prosperidade, sob a batuta da globalização capitalista e de uma mais rígida aplicação do receituário neoliberal, da livre circulação do capital especulativo, iria traduzir-se em novas operações de concentração da riqueza a favor do capital transnacional e com brutais custos econômicos e sociais para os trabalhadores e para os povos.

Na verdade, se há traço marcante nestes duas últimas décadas e meia é o desenvolvimento de uma poderosa ofensiva do imperialismo aos mais variados níveis. Uma cruzada revanchista que se lançou numa ofensiva exploradora e recolonizadora a nível global e que tentou recuperar o poder que a luta dos trabalhadores e dos povos, e a existência e o exemplo do campo socialista, tinha arrancado às classes dominantes no decorrer do século 20.

A globalização capitalista, longe de transformar o mundo numa pacífica “aldeia global” unida pelas novas tecnologias, ficou marcada pela apropriação das conquistas da ciência e da técnica pelo grande capital, pelo ataque às soberanias nacionais, pela intensificação da exploração do trabalho, pela redução ou destruição, nomeadamente nos centros capitalistas, de direitos laborais e sociais, pelo aumento das desigualdades na distribuição da riqueza quer entre classes quer entre países, pelo uso da dívida externa como instrumento de domínio econômico e político, por um incessante crescimento do grau de financeirização do capital, por um cada vez maior saque de recursos naturais e riquezas aos “países em desenvolvimento”.

O resultado desta evolução não conduziu a uma maior justiça na redistribuição da riqueza, mas sim ao aumento da exploração e da miséria em várias regiões do globo. A novas e mais profundas desigualdades.

Há dias um estudo internacional, amplamente divulgado, revelava que apenas oito empresários acumulavam o mesmo que a metade mais pobre da população mundial. Oito, apenas oito, acumulavam a mesma riqueza que 3,6 bilhão de pessoas.

Não há muito que a mesma organização revelava que o peso dos rendimentos dos 1% mais ricos da população era igual à riqueza dos 99% restantes.

Seja nos países em desenvolvimento, seja nos países ditos “desenvolvidos”, o direito ao trabalho é negado a mais de 200 milhões de pessoas. A precarização das relações laborais está a criar uma situação que cada vez mais se aproxima da realidade laboral do século XIX. Cerca de metade de todos os trabalhadores do mundo têm um trabalho precário ou informal.

São estes fatores, típicos do desenvolvimento do capitalismo que se torna cada mais rentista, parasitário e decadente, que estão na origem da pobreza, da fome e de outras grandes catástrofes sociais que afectam a Humanidade. Segundo a ONU, a fome afeta mais de 800 milhões de pessoas!

Nós vivemos em Portugal nestes últimos anos um exemplo esclarecedor do que é o capitalismo e das consequências das alterações verificadas do quadro mundial, no ataque às conquistas da Revolução de Abril e no agravamento da situação económica e social do País com o aprofundamento das políticas de recuperação capitalista e monopolista. Assistimos à aceleração da integração capitalista da União Europeia que, assumindo a mesma agenda do capitalismo dominante de liberalização, privatização e financeirização da economia, de ataque aos direitos laborais e sociais, contribuiu com a conivência e iniciativa própria das forças da política de direita em Portugal, para uma acentuada fragilização e dependência do País, nomeadamente com a liquidação e privatização dos setores estratégicos da economia nacional e o seu crescente domínio pelo capital estrangeiro, com a destruição dos principais setores produtivos nacionais.

Uma evolução que conduziu o País à estagnação crônica e à crise que está longe de ultrapassar.

Uma evolução com consequências desastrosas para a independência do País e sua soberania e para a degradação das condições de vida e de trabalho do povo português, com a fragilização e destruição de importantes direitos econômicos e sociais, com grave incidência nos direitos laborais, nos salários e na proteção social.

O balanço é conhecido: crescente desemprego, mais precariedade, estagnação e regressão econômica e do PIB, mais dívida pública, mais défice comercial, maior endividamento externo, maior endividamento das empresas e das famílias, pior distribuição do rendimento, degradação das condições de vida e mais pobreza, maiores desequilíbrios regionais, agravados défices estruturais.

Neste momento que iniciamos um novo ano e o programa do Centenário da Revolução de Outubro, e como o assinalou o nosso XX Congresso realizado o mês passado, persiste uma situação internacional de grande instabilidade e de grande incerteza em relação ao futuro, cada vez mais marcada pelo aprofundamento da crise estrutural do capitalismo e por uma violenta ofensiva do imperialismo.

Hoje continuamos a assistir ao agravamento dos traços mais negativos da natureza exploradora, opressora, agressiva e predadora do sistema capitalista.

A crise cíclica desencadeada em 2007/2008 continua sem fim à vista. A incapacidade para reanimar a economia está a acelerar a centralização e concentração do poder econômico e político, e a animar derivas securitárias e militaristas.

Com a evolução da crise o capitalismo resiste ao seu declínio, desenvolvendo uma multifacetada ofensiva visando apropriar-se de mercados, matérias-primas e posições estratégicas, desestabilizando e submetendo países que se oponham aos seus desígnios em praticamente todos os continentes.

A guerra que surge cada vez mais como a resposta do imperialismo à crise do seu sistema de exploração e opressão.

Nos principais polos do imperialismo, nos EUA, na União Europeia, no Japão, a situação é de manifesta incapacidade de reanimar a economia. E acumulam-se os fatores de novas crises.

O que esta evolução mostra e confirma é que o capitalismo não tem soluções para os problemas do mundo contemporâneo. Pelo contrário, a sua ação aprofunda todos os problemas e por toda a parte, e está permanentemente em confronto com as necessidades, os interesses, as aspirações dos trabalhadores e dos povos.

Por isso, mais do que nunca, o socialismo emerge com redobrada atualidade e necessidade no processo de emancipação dos trabalhadores e dos povos e que o PCP assume como um objetivo supremo no seu Programa.

Nós temos a convicção de que a necessidade de um sistema alternativo ao capitalismo – o socialismo –, está hoje mais presente no debate político e ideológico e, embora abrindo caminho com dificuldade, a tendência é para a recuperação nas massas do seu poder de atração.

A atualidade do socialismo e a sua necessidade como solução para os problemas dos povos por esse mundo fora exige ter em conta uma grande diversidade de soluções, etapas e fases da luta revolucionária, certos de que não há “modelos” de revoluções, nem “modelos” de socialismo, como sempre o PCP defendeu, mas sim, leis gerais de edificação socialista: poder dos trabalhadores, socialização dos principais meios de produção, planejamento – e, sobretudo, como elemento decisivo, a edificação de um Estado que promova e assegure a participação empenhada e criadora das massas na edificação da nova sociedade.

O projeto que apontamos e apresentamos ao nosso povo para concretizar em Portugal é produto do pensamento próprio do Partido e responde às especificidades nacionais, e leva também em conta as lições das experiências, positivas e negativas dos países socialistas.

Foi a partir da realidade portuguesa e da experiência revolucionária portuguesa, mas assimilando criticamente a experiência revolucionária mundial que definimos no nosso Programa de Partido uma concepção de socialismo e as características que deve assumir. Nele se expressam como objetivos fundamentais da revolução socialista, “a abolição da exploração do homem pelo homem, a criação de uma sociedade sem classes antagônicas, a democracia nas diversas vertentes, a intervenção permanente e criadora das massas populares, a elevação constante do bem-estar material e espiritual dos trabalhadores e do povo em geral, o desaparecimento das discriminações, desigualdades, injustiças e flagelos sociais, a concretização de uma vida de igualdade de direitos do homem e da mulher e a inserção da juventude na vida do País, como força social dinâmica e criativa”.

O poder dos trabalhadores, a garantia do exercício das liberdades democráticas, incluindo a liberdade de imprensa e de formação de partidos políticos, o respeito pelas opiniões políticas e crenças religiosas, a realização regular de eleições democráticas, contam-se entre as características do sistema político.

A propriedade social sobre os principais meios de produção, incluindo a banca, uma direção planificada da economia no quadro de formações econmicas diversificadas (organização estatal, cooperativas autogeridas, individuais e familiares, com empresas privadas de diversa dimensão) e da sua direta intervenção e iniciativa, e tendo em conta o papel do mercado; a realização completa da reforma agrária, com inteiro respeito pela vontade dos trabalhadores e agricultores, contam-se entre as características da organização econômica.

A libertação dos trabalhadores de todas as formas de exploração e opressão, o pleno emprego, a retribuição a cada um segundo o seu trabalho, o respeito pela propriedade individual, resultante do trabalho próprio, a solução dos graves problemas da habitação, saúde, ensino e meio ambiente, contam-se entre as características no plano social da nova sociedade.

A transformação da cultura em patrimônio, instrumento e atividade de todo o povo, o pleno acesso ao ensino, o progresso da ciência, da técnica e da arte, o estímulo à iniciativa individual e coletiva, são as suas características no plano da cultura.

A formação de uma consciência social e individual conforme os ideais de liberdade, dos deveres cívicos, do respeito pela pessoa humana e pela natureza, da solidariedade, da amizade e da paz, contam-se entre as características no plano ético da sociedade socialista que queremos construir no futuro.

Este é na sua essência o projeto de construção do socialismo que o PCP apresenta ao nosso povo, sabedores que a vida, sempre dinâmica, tal como as condições da sua realização, nos confrontarão com novos problemas que exigirão novas e imprevistas respostas e soluções.

Mas se afirmamos que esta é a época da passagem do capitalismo ao socialismo e em termos gerais mundiais, o socialismo se apresenta como única e verdadeira alternativa ao capitalismo, isso não significa que por toda a parte estejam reunidas condições para a conquista do poder dos trabalhadores, nem a palavra de ordem e a tarefa imediata seja a revolução socialista. O quadro da luta dos comunistas apresenta por esse mundo fora uma grande diversidade de soluções, etapas e fases da luta revolucionária.

Nas condições de Portugal, que conheceu uma revolução profunda cujas realidades, experiências e valores continuam a marcar a luta do povo português por uma vida melhor, um tal processo passa pela etapa que caracterizamos de uma Democracia Avançada, ela mesma parte integrante da luta pelo socialismo.

Um programa que apareceu na continuidade histórica da Revolução Democrática e Nacional e das ideias e realizações do 25 Abril e que projeta esse patrimônio de Abril como realidades e necessidades objetivas no futuro do nosso País.

O Programa do Partido de “Uma Democracia Avançada – os valores de Abril no futuro de Portugal” – é uma proposta que responde às necessidades concretas da sociedade portuguesa para a atual etapa histórica.

Um Programa cuja concretização é objetivamente do interesse de todos os trabalhadores e do conjunto de todas as classes e camadas sociais antimonopolistas.

Por isso, um programa que comporta e pressupõe na sua realização e nas transformações progressistas que preconiza um largo sistema de alianças sociais, cujos núcleos básicos são a aliança da classe operária com o campesinato (pequenos e médios agricultores) e a aliança da classe operária com os intelectuais e outras camadas intermédias.

Um programa de Democracia Avançada, cuja definição básica assenta na concepção de que a democracia é simultaneamente política, econômica, social e cultural, e que define cinco componentes ou objectivos fundamentais da democracia avançada:

1º – Um regime de liberdade no qual o povo decida do seu destino e um Estado democrático representativo e participado;

2º – Um desenvolvimento econômico assente numa economia mista, liberta do domínio dos monopólios, ao serviço do povo e do País;

3º – Uma política social que garanta a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e do povo;

4º – Uma política cultural que assegure o acesso generalizado à livre criação e fruição culturais;

5º – Uma pátria independente e soberana com uma política de paz e cooperação com todos os povos.

Sendo o projeto de Democracia Avançada parte integrante da luta pelo socialismo, a sua realização é igualmente indissociável da luta que hoje travamos pela concretização da ruptura com a política de direita e pela materialização de uma política patriótica e de esquerda que dá corpo a essa construção, num processo que não separa, antes integra de forma coerente, o conjunto de objetivos de luta.

Patriótica e de esquerda – duas dimensões da política que propomos e que definimos, tendo em conta a nossa realidade nacional, nomeadamente a crescente colonização econômica e consequente subordinação política que resulta do processo de integração capitalista da União Europeia e de domínio do capital monopolista nacional e internacional no nosso País.

Patriótica, porque o novo rumo e a nova política têm de romper com a crescente submissão e subordinação externas, e recolocar no centro da orientação política a afirmação de um desenvolvimento econômico soberano.

De esquerda, porque inscreve a necessidade de valorização do trabalho, a efetivação dos direitos sociais e das funções sociais do Estado – saúde, educação, proteção social -, uma distribuição do rendimento mais justa e o controle público dos setores estratégicos, assume a defesa dos trabalhadores e de todas as camadas e setores não monopolistas.

É com o objectivo de concretizar uma tal política que exige um governo que a concretize que o PCP tem apelado à convergência de todos os democratas e patriotas, das forças e setores que verdadeiramente se disponham a assumir a ruptura com a política de direita e construir uma sociedade mais justa.

São muitos os problemas e as dificuldades a vencer, mas é no socialismo e não no capitalismo que os trabalhadores e os povos encontrarão resposta para as suas aspirações de liberdade, igualdade, justiça, progresso social e paz.

Neste combate e na luta pelos nossos ideais e projeto, mais do que proclamá-los, é preciso persistir com determinação e coragem combativa o caminho indispensável à sua realização.

Esse caminho que para ter resultados precisa de um Partido Comunista forte e permanentemente reforçado, assumindo o seu papel de vanguarda em estreita ligação à classe operária, aos trabalhadores e ao povo. Precisa de uma ação permanente e quotidiana em defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País, o combate firme e persistente à política de direita e pela alternativa, o reforço da unidade da classe operária e dos trabalhadores, o empenhamento na formação de uma vasta frente social de luta, o fortalecimento das organizações e movimentos unitários de massas, a convergência e unidade dos democratas e patriotas, a conjugação da ação eleitoral e institucional com a ação de massas, a intensificação e convergência da luta de massas, fator determinante e decisivo, para assegurar o êxito de qualquer projeto de transformação social progressista, que sirva os trabalhadores e o povo.

Em Portugal e no mundo não há avanço, progresso, esperança, que não tenha contado com as ideias, o esforço, a coragem, o sangue e a luta dos comunistas!

É com a profunda convicção de que o socialismo e o comunismo são o futuro da humanidade que continuamos a nossa luta, firmemente conscientes que o futuro não acontece, constrói-se e conquista-se.

Somos um Partido Comunista do nosso tempo e para o nosso tempo, firme no seu ideal e na afirmação do seu projeto transformador e revolucionário e que tem sempre presente no horizonte da sua ação e intervenção a construção da sociedade nova – o socialismo.

Comemoraremos os 100 anos da revolução de Outubro reafirmando que fomos, somos e seremos comunistas!

Viva a Revolução de Outubro!
Fonte: PCP e Portal da Resistência

2016-2017 – Tempo de resistência e luta, pois resistir é já vencer!

Vivemos um tempo marcado por graves ameaças à paz. O mundo atravessa período instável, carregado de conflitos, perigos constantes derivados das políticas de domínio do imperialismo sobre os povos.

Por José Reinaldo Carvalho (*)

Em 2016, esses perigos aumentaram. A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, um pregoeiro do unilateralismo e da primazia dos interesses norte-americanos, a ascensão de forças políticas de direita e extrema direita na Europa, a ação de organizações terroristas, o aumento do perigo nuclear e da militarização são algumas demonstrações disso.

Mais do que em outros momentos, repetimos com o companheiro Fidel Castro: “É preciso martelar sobre a necessidade de preservar a paz, e que nenhuma potência se dê o direito de matar milhões de seres humanos”.

Os conflitos que marcaram o ano de 2016 e o prenúncio de novos acontecimentos dramáticos nos anos vindouros estão ligados à própria natureza do imperialismo, com as contradições que engendra, as abissais e inenarráveis desigualdades sociais e nacionais que provoca e a inarredável crise multidimensional do capitalismo, um sistema incapaz de encaminhar a solução para os graves problemas que assolam a Humanidade e que mostra cada vez mais sua natureza espoliadora e opressora.

Em 2016 foi ainda mais intensa e brutal a ofensiva que o imperialismo estadunidense e forças oligárquicas regionais e nacionais desenvolveram na América Latina e no Caribe visando a derrocar os governos progressistas e de esquerda, frear e fazer retroceder as lutas por soberania nacional, integração regional solidária, desenvolvimento com justiça, progresso social, liberdade e democracia. As forças de direita na região, subordinadas ao imperialismo norte-americano, conquistaram terreno ao empalmar o poder na Argentina (final de 2015), no Brasil e tornar mais difícil o percurso da Revolução Bolivariana na Venezuela.

Em nosso país, consumou-se o golpe de Estado deflagrado por instituições políticas, jurídicas e midiáticas, instrumentalizadas pelas classes dominantes, subordinadas às potências imperialistas, inimigas da democracia, do progresso social e da soberania nacional. Classes dominantes retrógradas, que não aceitam reformas ou mudanças políticas e sociais. Um golpe de caráter antidemocrático, antipopular e antinacional.

Em meio a contradições intestinas, motivadas por interesses mesquinhos e tentando camuflar criminosos propósitos, os partidos e personalidades protagonistas do golpe, sem exceção, estão entrincheirados em torno do novo regime que criaram. Encontram-se em plena ofensiva para liquidar os direitos dos trabalhadores e do povo e alienar a soberania nacional. Malgrado o repúdio que recebem da população indignada e apesar das referidas contradições, criaram uma espécie de frente única golpista e avançam na imposição de sua agenda.

Em 2017 e nos anos vindouros, para além da esperança renovada, confiamos na capacidade dos trabalhadores e dos povos de resistir e lutar. Resistência e luta presentes em 2016, embora invisibilizada pela mídia empresarial. Em todo o mundo, é vasta, maciça e diversificada no conteúdo e nas formas a peleja dos trabalhadores por direitos sociais, pelo emprego, salários dignos, pela redução da jornada de trabalho, por serviços púbicos dignos, por educação, saúde e uma vida civilizada e culta.

Também são intensas a resistência e luta contra a ocupação de países, em defesa da soberania nacional e da autodeterminação, pela paz, contra o militarismo, as armas nucleares, o terrorismo em todas as suas formas, incluído o de Estado, praticado pelas potências imperialistas.

O ano de 2016 termina com algumas marcantes vitórias dos povos. Uma delas, incontestável, foi a assinatura dos acordos de paz na Colômbia, que culminou, nos últimos dias, com a aprovação da lei de anistia aos insurgentes. Ainda no âmbito latino-americano, são alentadores os avanços da Revolução Cubana, a resistência da Revolução Bolivariana na Venezuela, os progressos dos governos progressistas na Bolívia, Equador e Nicarágua.

Os recentes acontecimentos na Síria, como o triunfo das forças da libertação nacional em Alepo, o anúncio do cessar-fogo, fazendo surgir a possibilidade da paz no país árabe, e a vitória diplomática alcançada na ONU pela luta de libertação do povo palestino contra os agressores sionistas também enchem as forças progressistas de esperanças e convicções de que é possível sim, resistir, lutar e vencer.

No Brasil, o combate pela derrubada do regime golpista, pela defesa de direitos e da soberania nacional, e a campanha por eleições diretas antecipadas para presidente da República vão tomando forma, apesar da virulência das forças golpistas e do oportunismo de setores das classes dominantes que lançam iscas a fim de atrair as forças progressistas à armadilha da conciliação e capitulação.

A luta, e somente a luta, constitui a base objetiva para construir a ampla unidade das forças democráticas, patrióticas, progressistas e de esquerda.
Em 2017, continuaremos empenhados em resistir e lutar, convictos de que resistir é já vencer. Desistir seria morrer. Como no provérbio moçambicano, “o pior sofrimento não é ser derrotado, é não poder lutar” (**).

Anima-nos a reafirmação, o desenvolvimento e enriquecimento dos princípios que fundamentam nossa existência como Partido Comunista, trouxeram-nos até aqui e nos levarão adiante. Princípios tão presentes no maior acontecimento sócio-político da História da Humanidade até os dias de hoje, a Revolução soviética, cujo centenário celebraremos em 2017.

(*) Jornalista, editor de Resistência, membro do Comitê Central, Comissão Política e Secretariado do PCdoB, responsável por Política e Relações Internacionais
(**) Citado por Mia Couto em Sombras da água (segundo livro da trilogia As areias do imperador).